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terça-feira, 9 de março de 2010

Os saltitantes seres da Lua. Nelson de Oliveira


“...Papai, papai, eles estão chegando, os caipiras, papai, eles estão chegando, corre, corre, papai, corre, eles estão chegando, os caipiras./ Pulavam, ao meu redor, as crianças. Comecei a rir, diante daquela cena. Pulavam em câmera lenta, como se estivessem no vácuo, na superfície da lua. Enquanto uma subia, outra descia, alternadamente, os estranhos seres da lua. Duas criaturas gordas, flutuantes, numa cratera qualquer, saldando-me alegremente.”(p. 73/74).


“Aparentemente absorvido por um zumbido composto de mil clarins, o anjo, atordoado por este acorde dissonante, sem fronteiras, ecoando entre o céu e a terra, perceptível apenas pra ouvidos refinados, divinamente abrangentes e refinados, reconhece em si parte daquela questão irrespondida, talvez “The Unanswered Question”, formulada no início dos tempos e representada por flautas, oboé e clarineta, entre outros, há alguns anos, por um compositor americano, Ives.” (p.9).


“...Ele existia, era sólido e palpável, porém, seus olhos apresentavam uma coloração terrivelmente alucinada e transparente, como se neles, mergulhado em suas pupilas quase pré-históricas, estivesse presente, muito bem aprisionado, um reflexo claro e detalhado do dilúvio universal – a catástrofe da vida, borbulhando a mais de 100° C.” (p.36/37)


Essas três passagens são apenas um aperitivo, amostra grátis do estilo de narrativa dos cinco contos que fazem parte de “Os saltitantes seres da Lua” (1997). O primeiro parágrafo faz parte do conto que dá nome ao livro, no qual nos deparamos com uma espécie de guerra “conceitual”, choque de culturas levadas ao extremo, talvez o único tipo de guerra que poderia haver num povo antibelicista e pacífico por natureza como o brasileiro. O segundo parágrafo pertence ao conto “Nowhere man” e o terceiro ao conto “Naquela época tínhamos um gato”. O escritor Nelson de Oliveira é um pesquisador de estilos, garimpeiro de bons escritores e já escreveu e organizou livros de sucesso no meio literário como “Geração 90: manuscritos de computador”, “Geração 90: os transgressores”, “O século oculto” e outros. Tudo isso lhe deu um estilo diversificado e único que torna sua escrita leve, objetiva, direta, simples e acessível a qualquer leitor. Os contos de Nelson de Oliveira não cansam nem enjoam, são de uma digestibilidade impressionante. Em “Os saltitantes seres da Lua”, como bem diz numa das orelhas do livro, o autor “faz uma viagem em que percorre a infância e a maturidade, em seus desafios éticos, morais, suas perdas e crises, desespero e transformação”. O estilo “fantástico”, ou do “realismo mágico”, como alguns preferem, está presente nos contos de forma discreta em alguns e, em outros, nem tanto, mas imprescindível para a percepção da trama pelo leitor. A meu ver, o realismo mágico é que dá “cor” e “sabor” aos contos e, admito, sou fã incondicional do estilo e do escritor, claro.


Os saltitantes seres da Lua. Nelson de Oliveira. Editora Relume Dumará. 1997. 86 páginas. R$25,90 na Livraria Cultura.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Blablablogue – Crônicas e Confissões. Organizado por Nelson de Oliveira.



O escritor Nelson de Oliveira (“Naquela época tínhamos um gato”, 1995) já se tornou um referencial de consulta, com sua habilidade em descobrir e divulgar novos talentos literários. Graças aos seus artigos sobre a literatura brasileira contemporânea, publicados na internet e em livros sobre o assunto, pude conhecer trabalhos de excelentes escritores, tais como: João Anzanello Carrascoza (Dias Raros, 2004); Marcelo Mirisola (Fátima fez os pés para mostrar na choperia, 1998), Marcelino Freire (Balé Ralé, 2003), Rosário Fusco (A.S.A. – Associação dos Solitários Anônimos) e outros.

Neste livro, “Blablablogue – Crônicas e Confissões”, Nelson de Oliveira, através de uma pequena (quase ínfima) amostragem, revela-nos a magnitude do universo da chamada “blogosfera”. Embora tenham sido, equivocadamente, a princípio, caracterizados como espaços para divulgação de um suposto egocentrismo dos internautas, os Blogues hoje se tornaram uma fonte segura, eclética e inesgotável de informação e cultura. No livro, Nelson restringiu-se apenas aos blogues da sua “praia”: a literatura. O critério utilizado para selecionar os 21 blogueiros do livro foi o mais simples possível, a afinidade e o fato de conhecer os internautas. O próprio escritor é quem diz: “Curioso isso: os desconhecidos não me interessam tanto. Eu gosto de ler o blogue de pessoas que eu conheço, que moram perto de casa ou, no caso das que moram fora, estão sempre visitando São Paulo. Todas elas são apaixonadas por literatura e a maioria já tem livros publicados.” (p.158).

Alguns dos blogueiros selecionados para o livro, já são escritores conhecidos e de talento inquestionável, como o escritor pernambucano Marcelino Freire, do blogue - http://eraodito.blogspot.com; e o escritor gaúcho Fabrício Carpinejar, cujo blogue leva o seu nome – http://fabriciocarpinejar.blogger.com.br. Mas Nelson de Oliveira, com seu olho clínico, apresenta-nos vários outros novos escritores, entre os quais, destaco:

Andréa Del Fuego: blogue – http://delfuego.zip.net

“Acredito que a inteligência ou o espírito, como quiser, se manifesta quando há uma determinada configuração. Nosso corpo tem uma configuração X, nele o cérebro recebe e envia eletricidade, a base da comunicação, esta, o veio da inteligência. O corpo configurado pode abrigar o espírito e nele instituir faculdades, pois somos uma proposta em andamento. Se o homem, na fabricação de suas máquinas, tentar imitar a configuração humana: organismo e metabolismo, corremos o risco de constituir algo capaz de abrigar um pensamento. Foi o que fizeram conosco, é uma questão de conteúdo e continente. Daqui por diante tenha cuidado ao comprar uma boneca, ela pode se chatear se ficar presa no guarda-roupa.” (in “Cabeça e membros”, p.7)

Bruna Beber: blogue – http://didimocolizemos.wordpress.com

“Velhice é procurar montanhas e achar apenas montanhas de roupa suja. É classificar um disco como “agradável para lavar roupa” no trajeto entre a área de serviço e o macarrão que tá no fogo. / É abrir a janela de manhã pros cartões postais, atrás de sol, e notar que seu único cartão postal é o supermercado pão de açúcar. E ter que ir lá porque acabou o pó de café. / Mas acho que o raio-x da velhice (e da pobreza), mermo, é comprar congelados de um amigo do trabalho pra garantir uma boquinha no domingo. E, claro, esquecê-los no trabalho na sexta-feira à noite.” (in “Dolla”, p.44)

Ademir Assunção: blogue – http://zonabranca.blog.uol.com.br

“Ella é fumante há trinta anos. Semana passada tossiu durante duas horas, onze minutos e trinta e sete segundos seguidos, sem parar. Quase bateu seu recorde anterior. Nesta sexta-feira, Dia Nacional Anti-Fumo, decidiu passar o dia inteiro sem acender um cigarro. Estava indo bem até que viu na padaria a manchete na Folha de S.Paulo: “Serra propõe banir o cigarro de SP”. Não se deu conta inteiramente do golpe até ler a linha fina: “Se o projeto enviado à Assembléia for aprovado, só será permitido fumar ao ar livre ou dentro de casa”. Ella ficou tão abalada que precisou acender um cigarro.” (in Miniconto tabagista”, p. 67)

Ana Paula Maia: blogue – http://killing-travis.blogspot.com

“Às vezes parece que estou amolecendo. Que meu coração pode ser partido em alguns pedaços. Mas não. Quando amoleço, eu choro. E quando choro meu coração se fortalece. É um músculo robusto. Não dá pra perceber porque o meu peito é profundo. É profundo como minha alma, presa às coisas fora da minha dimensão palpável. / Sou sensível por fora, frágil como uma garotinha, mas aprendi a derrubar touros. Eles são fortes por fora e instáveis por dentro. Em meio à instabilidade dos outros, encontro um equilíbrio que move minhas relações. Às vezes desabo. Então eu durmo. Durmo muitas horas. Quando acordo, as horas transcorreram, o planeta girou, pessoas nasceram, morreram, mutilaram-se, desistiram, choraram, beberam, drogaram-se, se desesperaram, concluíram e recomeçaram. Eu acordo. Tomo um banho. Como alguma coisa. Retomo minha vida e me apoio nessas instabilidades que moverão meu novo dia.” (in “Mariposas fazem sombras em mim enquanto sobrevoam a lâmpada da sala”, p. 93)

Por fim, o próprio Nelson, conclui: “Para quem não costuma visitar blogues, esta coleção de crônicas e confissões deve ser entendida apenas como um convite, um aperitivo, uma plataforma de decolagem... O universo on-line é imenso: em cada blogue haverá dezenas de links para outros blogues igualmente interessantes, formando uma trama de infinitas constelações.” (p.158)

“Blablablogue – Crônicas e Confissões”, organizado por Nelson de Oliveira.

(Editora Terracota, 2009, 159 páginas, R$25,00 na Livraria Cultura)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Os cem menores contos brasileiros do século. Organizado por Marcelino Freire.


Um experimento literário. Vale pela arte de escrever (o que for). Inspirados pelo famoso microconto ou miniconto (a distinção é tão sutil que confunde, mas há quem distinga com precisão) do escritor hondurenho, Augusto Monterroso (Bonilla)*, que nasceu em 21/12/1921 em Tegucigalpa, falecendo em 07/02/2003:

“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”

Um “microconto” com 37 letras que se tornou mundialmente famoso. Foi inspirado nele que o escritor Marcelino Freire (Balé Ralé, Contos Negreiros) resolveu desafiar cem escritores brasileiros para escreverem “histórias” inéditas com até 50 “LETRAS” e não “palavras”. Uma tarefa difícil e que requer um poder de concisão muito apurado. Nos “textos” publicados pelos cem (103) escritores há de tudo um pouco. Doidice sem tamanho, coisa “sem-pé-nem-cabeça”, absurdos despropositais, literatura “conceitual”, “bobiças” para rir um pouco. Não bastasse o tamanho diminuto do livro (13x11cm), que ficou parecido com aquelas pequenas bíblias encontradas nas gavetas de criado-mudo de cama de hotel de terceira. Salvam o livro (ainda bem!) os “textos” de alguns escritores que se propuseram a dar valor ao que levaria seus nomes:

“Faço amizade comigo para tomar uma cerveja.” (in “Fossa”, de Fabrício Carpinejar, p.27);

“Pronto nos olhos, o pranto só espera a notícia.” (in “Vigília”, de João Anzanello Carrascoza, p. 38);

“Banheiro na chamada do vôo. Cálculo renal salta. Ele guarda.” (in “Aeroporto”, de João Gilberto Noll, p. 40);

“- Cabeça?/ - É. / - De quem? / - Não sei. O dono não tá junto.” (in “Disque-denúncia”, de Marçal Aquino, p. 55);

“- Se atrasa, preocupa. Quando chega, incomoda. / - Menstruação? / - Meu marido.” (in “Chico”, de Nelson de Oliveira, p.73);

“Madrugada. / Ele as esmaga com os pés, dá-lhes chance de ferroar.” (sem título, Paulo Scott, p. 77).

Um destaque especial para o cineasta e escritor gaúcho Jorge Furtado:

“- Eu não te amo mais./ – O quê? Fale mais alto, a ligação está horrível!” (sem título, p. 43)

Marcelino Freire, o organizador, é salvo pelo título:

“Ajoelhe, meu filho. E reze.” (in “Pedofilia”, p.56)

Mas o que realmente salva o livro é o texto de Sérgio Roveri:

“- É espinha?/ - Cravo. / - Posso apertar?/ - Não!/ (Ploc)/ - Ai, que nojo.” (p. 93)

Se despertei curiosidade, o livro “Os cem menores contos brasileiros do século” é de 2004, publicado pela Ateliê Editorial, com 104 páginas, paguei R$35,00 pela Internet. Caro. É bom para aprender.

(*)http://es.wikipedia.org/wiki/Augusto_Monterroso

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Desonrados e outros contos. Arlindo Gonçalves


Um retrato, sem maquiagem, do submundo, ou melhor dizendo, da realidade de uma grande cidade. Contrastando o cruel cotidiano da grande maioria, dos sem teto, dos desempregados, dos alcoólatras, dos excluídos, que apenas sobrevivem; numa oposição aos poucos que ganham muito e, realmente, vivem.


Poderia até dizer que Arlindo Gonçalves elabora um trabalho comovente, necessário e útil, exibindo uma atmosfera paulistana que passa despercebida, mas que está ali para todos verem, e que, no entanto, muitos (comodamente) evitam olhar. Fazendo um paralelo, Arlindo produz, literariamente, algo com São Paulo, como pano de fundo; ao que João Antônio faz com o Rio de Janeiro.


"Desonrados", como muito bem apresentado pelo escritor Nelson de Oliveira, em seu prefácio, pode ser tanto "uma coletânea de contos" ou "uma novela multifacetada". Podendo ser lida de "maneira independente ou dez capítulos de algo mais amplo". Em seu segundo livro, Arlindo Gonçalves, um dos grandes colaboradores do site "Leia Livro", mostra sua maturidade e seu incrível domínio da narrativa, ao compor uma obra densa, instigante e questionadora.


Nelson de Oliveira traça semelhanças entre "Desonrados" e "Memórias do subsolo", de Dostoievski. Eu acrescentaria outra peculiaridade, entre o excelente conto "Manhã nova" com a realidade exposta por Thomas De Quincey, em algumas passagens de "Confissões de um Comedor de Ópio", de 1821. Quase duzentos anos separam as obras e surpreendentemente nos deparamos com as mesmas seqüelas do implacável "capitalismo selvagem".


"Desonrados", de Arlindo Gonçalves, deve ser lido, não só como mais uma obra que nos induz à reflexão para rever valores, mas também para se conhecer o talento de um grande escritor. Arlindo é mais um expoente que se sobressai na formação de uma nova e crescente geração de escritores brasileiros.


"Desonrados" foi publicado em 2004 pela Editora Marco Zero, um selo editorial da AMPUB Comercial Ltda.


Resenha publicada no site www.leialivro.sp.gov.br.