quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Quem é você, Alasca? John Green

Sim (poderia começar com um não, mas por que não começar assim: com um “Sim”, simples direto e positivamente mais otimista?). Às vezes, como agora, corro o risco de esquecer o que me motivou a começar a escrever, é uma ideia sobrepondo-se a outra, mas vou escrever para não a esquecer: “tenho n razões para acreditar no difícil, no remoto, no impossível”. Sim (de novo), sou um otimista inveterado e incorrigível (Thank God!). Acabo de terminar a leitura de “Looking for Alaska”, de John Green (em português, “Quem é você, Alasca?”, tradução que, como de hábito, já conta um pouco da história, herança portuguesa lamentável. Fazer o quê?). Gosto do mistério que envolve a escolha dos livros que leio. É quase como um pedido: “ei, você irá gostar da minha história!" Como se o livro me chamasse à leitura. “Coisa de doido!”, como alguém deixara escapar várias vezes. 

A trama da história de “Looking for Alaska” extrapola e surpreende. O que me atraiu no início era o tradicional romance: “garota bonita e inteligente X garoto estranho e interessante”. Motivado pela leitura de algumas passagens que li no Tumblr e no Facebook. Qualquer semelhança com minha visão de vida não é mera coincidência. Gosto das infinitas possibilidades que o cotidiano nos mostra de forma tão “labiríntica”. Ainda bem que a vida “é bem como ela é”, mesmo! (risos) Não fosse assim, acho que seria um eterno frustrado. Cada pessoa é um universo à parte. Muitas vezes ficamos horrorizados com o que ouvimos, ou com o que as pessoas (diferentes ou não muito diferentes de nós) fazem. Por mais fora do padrão que nossos comportamentos sejam, sempre achamos que os outros é que não são “normais”. 

Voltando ao livro. Além de romance adolescente para adolescente, o livro traz uma temática interessante e incomum: a predileção por “últimas palavras” de pessoas ilustres. Talvez os americanos não sejam nativos do planeta Terra. Mas, surpreendentemente, há inúmeros livros sobre isso. Por que alguém iria se interessar por “últimas palavras”? Por que alguém iria querer se “eternizar” dizendo algo para a posteridade, quando, nos momentos que antecedem a morte, o moribundo quer, sobretudo, sobreviver e não fazer “imagem”. Quem, em sã consciência, acha que os moribundos querem “ficar bem na foto”? Outro dia comentei que deve ser muito legal ter um pai músico que fizesse uma música maravilhosa em homenagem ao filho. Falava de “Jealous Guy”, de John Lennon. E, meu filho, com uma visão de outro ângulo e muito mais sensata que a minha, corrigindo-me: “prefiro um pai vivo a um pai morto”. Bem, e as tais "últimas palavras"? “Como faço para sair deste labirinto?” e “Saio em busca de um grande talvez”. 

Parece uma grande bobagem preocupar-se com as últimas palavras de um moribundo, porque, acaso estivéssemos no lugar dele, iríamos querer unicamente não estar naquela situação. Ao invés de querer gastar o último sopro com palavras, que poderão até sair incompreensíveis ou, obviamente, apressar a morte, mais sensato seria gastá-lo tentando respirar de novo, mais e melhor. As coisas muitas vezes nos fogem do controle e do seu rumo inicial, fogem do plano, quando o imprevisto afeta substancialmente o plano A, e é por isso que devemos analisar tanto as variáveis possíveis e prováveis, possibilitando planos B ou C. Ao tentar entrar no assunto das palavras e do silêncio, “prefiro as palavras mal ditas ao silêncio”. 

Ainda não sei o porquê, mas, ás vezes, chego a ter a impressão de morte, como se tivéssemos morrido, ou assassinássemos um ao outro ao dizermos goodbye, farewell, it’s over. O cérebro pode até interpretar racionalmente, mas, há momentos em que aquele algo mais se sobrepõe e, talvez fruto do coração saudoso e inconformado, dá sinais de sobrevida. Não, este “tipo” de morte não existe. Racionalizar o sentimento é uma das maiores insensatez que uma pessoa pode tentar fazer, mas o fazem com frequência. “Ela me ensinou tudo o que eu sabia sobre lagostins, beijos, vinho tinto e poesia. Ela me mudou” (p. 176) e a forte irresignação “Você não pode me mudar e depois ir embora.” E, muitas vezes, ao nos lembrar de algo, damo-nos conta da fragilidade do tempo, naquele local onde ele não tem o menor sentido, quando a presença fantasmagórica nos vem, como necessidade premente, e somos obrigados a parar e refletir, com os olhos vidrados e a mente a 17 mil quilômetros de distância: “Eu queria tanto me deitar ao lado dela, envolvê-la em meus braços e adormecer. Não queria transar, como nos filmes. Nem mesmo fazer amor. Só queria dormir com ela, no sentido mais inocente da palavra.” 

Por motivos que não interessam agora, há muitos anos não lia um autor estrangeiro. John Green (o mesmo de “A Culpa é das Estrelas”) é muito bom e excepcional em retórica. O livro poderia ser resumido em um terço do seu tamanho, mas se correria o risco de se perderem algumas das suas melhores passagens, que aparecem justamente nas pausas retóricas. Vale a pena se deixar levar por uma boa narrativa e personagens avessos (ou nem tanto) a nós. Adoro esta experiência extra-corpórea que a literatura nos oferece. E que bom que, ao concluirmos a leitura, já não somos mais os mesmos, apesar de estarmos na mesma casa, e talvez sentados na mesma poltrona do início da leitura. Agora que já li o livro, acho que, nas mãos de um bom diretor, até que daria um filme interessante, talvez até “Cult”, com boa trilha sonora e efeitos especiais. Não gosto de ler o livro depois do filme, pois há uma tendência a nos influenciarmos pela visão do diretor, o que não é legal. Eu particularmente não gosto. "Quem é você, Alaska?" é o meu segundo livro lido do ano. Estou devendo, mas o que importa mesmo é não parar. A seguir algumas passagens retiradas do site da escritora e blogueira Isabel Freitas, espero que ela não se importe. 

“Ela tinha namorado. Eu era um palerma. Ela era apaixonante. Eu era irremediavelmente sem graça. Ela era infinitamente fascinante. Então eu voltei para o meu quarto e desabei no beliche de baixo, pensando que, se as pessoas fossem chuva, eu seria garoa e ela, um furacão.”;

"Chega uma hora em que é preciso arrancar o Band-Aid. Dói, mas pelo menos acaba de uma vez e ficamos aliviados.";

 "Tantos de nós teríamos de conviver com coisas feitas e deixadas por fazer naquele dia. Coisas que terminaram mal, coisas que pareceram normais na hora, porque não tínhamos como prever o futuro. Se ao menos conseguíssemos enxergar a infinita cadeia de consequências que resultariam das nossas pequenas decisões. Mas só percebemos tarde demais, quando perceber é inútil.";

“Quando os adultos dizem: “Os adolescentes se acham invencíveis”, com aquele sorriso malicioso e idiota estampado na cara, eles não sabem quanto estão certos. Não devemos perder a esperança, pois jamais seremos irremediavelmente feridos. Pensamos que somos invencíveis porque realmente somos. Não nascemos, nem morremos. Como toda energia, nós simplesmente mudamos de forma, de tamanho e de manifestação. Os adultos se esquecem disso quando envelhecem. Ficam com medo de perder e de fracassar. Mas essa parte que é maior do que a soma das partes não tem começo e não tem fim, e, portanto, não pode falhar” ;

“Mas que diabos significa “instantâneo”? Nada é instantâneo. Arroz instantâneo leva cinco minutos, pudim instantâneo uma hora. Duvido que um instante de dor intensa pareça instantâneo.” ;

“Isso é o medo: Perdi uma coisa importante, não consigo achá-la, preciso dela. É o que a pessoa sentiria se perdesse os óculos, fosse até uma óptica e descobrisse que todos os óculos do mundo tinham se acabado e que, agora, ela teria de se virar sem eles.”;

“Eu queria ser seu último amor. Mas sabia que não era. Sabia e a odiava por isso. Eu a odiava por não se importar comigo. Eu a odiava por ter me deixado naquela noite. E odiava a mim mesmo por tê-la deixado ir embora, porque, se eu tivesse sido suficiente, ela não teria querido ir embora. Simplesmente teria se deitado comigo, conversado e chorado. E eu a teria ouvido e teria beijado as lágrimas que caíam dos seus olhos.”;

“Não sabia se podia confiar nela e já estava cansado de sua imprevisibilidade – fria num dia, meiga no outro; irresistivelmente sedutora num momento e insuportavelmente chata no outro.”;

“Vocês fumam para saborear. Eu fumo para morrer.”;

“Eu queria ser uma dessas pessoas que têm uma sequência a manter, que chamuscavam o chão com sua intensidade. Mas agora pelo menos, eu conhecia pessoas desse tipo, e elas precisavam de mim como um cometa precisa de uma cauda.”;

“O que significa ser uma pessoa? Como passamos a existir e o que será de nós quando deixarmos de existir? Em suma: quais são as regras deste jogo e qual é a melhor maneira de jogá-lo?”;

“Você não pode me mudar e depois ir embora.”;

“Não posso ser uma dessas pessoas que ficam sentadas falando que pretendem fazer isso e aquilo. Eu vou fazer e pronto. Imaginar o futuro é uma espécie de nostalgia.”;

“Eu queria tanto me deitar ao lado dela, envolvê-la em meus braços e adormecer. Não queria transar, como nos filmes. Nem mesmo fazer amor. Só queria dormir com ela, no sentido mais inocente da palavra.”.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

O livro espantado. Priscila Lopes

Na vida, escolhemos caminhos que nos surgem pela frente e costumamos seguir adiante, quase que instintivamente, sem muita reflexão, pois, como dizem, o tempo está sempre nos comendo pela perna. Encontramos muita gente nos anos de trajetória. E, em meus 50 anos, recém completados, então, um montão de gente. Cada qual com seu grau de importância. E é claro que algumas pessoas se sobressaem das demais e entram, quase todas sem querer, para um rol de destaque na nossa humilde história. Priscila é uma delas.

Há alguns anos, encontrei Priscila Lopes por acaso, num site de novos escritores. Foram caminhos que se cruzaram, eram pretensões similares, mas comportamentos distintos. Imprescindível detalhe. Eu desisti de escrever, pois minha avassaladora autocrítica sagrou-se vencedora. Não lamentem. E ainda não sei se para o bem (dos leitores) ou para o mal (meu, particular). Priscila, ao contrário, perseverante por natureza (acredito, pois deu provas disso), seguiu em frente, cabeça erguida, decidida. O resultado está diante de meus olhos. Um livro surpreendente. E já é o seu segundo livro.

Costumo lembrar de uma frase que vi num diálogo de um filme, visto há vários anos, cujo nome não me vem: “somos sempre maiores do que pensamos ser e nossas ações geram mais consequências do que imaginamos.” É isso. Perfeito. Priscila se enquadra perfeitamente na máxima. Li seu livro com deleite e com certo orgulho de ter acompanhado sua trajetória, de longe, mas sempre com interesse no seu sucesso. Reconheci seu talento. Há alguns anos, chegamos a trocar emails, cujo teor não podia ser outra coisa: livros e literatura. Tive, em determinado momento, o prazer de receber uma confissão de Priscila, que talvez ela nem mais se lembre, entretanto vale recordar. Confidenciou-me à época: “Vou te contar um segredinho”, disse, segura em compartilhar: “Eu a-do-ro escritores gaúchos!” Aquilo soou como música aos meus ouvidos, ainda mais vindo de uma catarinense. Primeiro, porque eu também adoro ler escritores gaúchos; e, segundo, porque eles são meus conterrâneos. Anos depois, soube que um de seus contos fora publicado na Revista Cult e também fiquei muito feliz por mais um sucesso.

Em “O livro espantado” (122 páginas, editora Patuá, 2014), Priscila presenteia o leitor com 24 contos curtos, em narrativas curiosas, fluidas e digestivas, cujos temas vagueiam entre a infância e a pré-adolescência. Narrados, predominantemente, em primeira pessoa, a atmosfera dos contos nos passa a impressão de um livro de memórias, com o tradicional clima intimista e confessional. Embora já tenha lido que as narrativas em primeira pessoa sejam pouco confiáveis, e que deixam o leitor inseguro, posto que a história nos é transmitida sob o ponto de vista de apenas um dos personagens, ao mesmo tempo nos passam a ideia de veracidade, como se tudo, realmente, tenha acontecido. E Priscila conseguiu, pois, na maioria das narrativas de personagens femininos, tem-se a impressão de que a história se passou com a própria autora.

Embora na contracapa se mencione um “mergulho no universo da infância”, percebi, na quase totalidade dos contos, uma predominante maturidade na visão infantil das coisas pelos protagonistas, como memória revivida. Assim como assisti a uma entrevista de um garoto de 11 anos, capaz de uma aula de maturidade, muito provavelmente por ser uma criança que lê; acredito que revermos nossa infância em memórias longínquas depois de adulto, não só nos enriquece, como nos deixa mais conscientes do contínuo e necessário processo de autoconhecimento. Além disso, a narrativa de personagem feminino também nos possibilita, como leitores masculinos, a inusitada e interessante experiência extracorpórea.

Alguns contos se sobressaíram, no meu gosto pessoal, e os destaco. Em “Nunca amar” (p.7), o conto que abre o livro, a personagem com seus planos para o primeiro amor. “... à noite ficava até tarde na internet escolhendo as músicas; músicas para tocar quando se conhecerem, músicas para quando já tiverem dito ‘te amo’, músicas para o casamento... casamento!”, e foi impossível não fazer minha associação a uma canção popular dos anos 70, cujos versos pedem que o amor não chegue na hora marcada, e, ao final, imperativamente, “quando te encontrar, me reconheça”. 

Me encantou a passagem, em “A maçã do amor” (p.31): “... Calou-se. Para sempre. E eu também emudeci pálido como açúcar; apavorado como um pintinho que, na verdade, nem sabe do que tem medo, apenas vive de se apavorar, até virar galinha e perceber que não havia mistério então; era só botar ovos.”.

No conto “O livro espantado” (p.43), conto que dá título ao livro, uma relação muito pessoal com o livro e a paixão pela leitura: “... Foi em pé, abraçada ao pacote, deslizando os dedos sobre ele, sentindo seu peso; não podia ser o mesmo livro. Talvez fosse semelhante, com os vinte contos mais populares do século, ou de poesias, ou de micronarrativas. Ou quem sabe fosse um livro que o destino encomendara para ela...” E foi como mágica ler o conto e rever a minha própria relação com os livros. Adquiri, na infância ainda, uma relação quase esquizofrênica com o livro. O livro físico, seu cheiro, sua textura, a magia das imagens das capas, orelhas de degustação, e aquelas quase infinitas letrinhas enfileiradas a me hipnotizarem, sempre numa relação tempestuosa com a minha impossibilidade financeira de adquiri-los. Em décadas de psicoterapia, acho que eu só piorei. Embora eu, ultimamente, os tenha evitado, volta e meia tenho recaídas e, confesso, leio, leio muito. Houve um tempo em que gostaria de ter o poder especial de absorver o conteúdo de um livro com um simples toque de dedo, como alguns personagens de filmes de ficção científica; ou, melhor, poder esticar o tempo e ficar, dias e dias, lendo sem parar.

Em “Antes de mim” (p.97), reflexões como verdadeira poesia em prosa: “... ela às vezes falta em dias de chuva. Sua palidez pertence às quintas de chuva; de certo fica em casa cultuando-a, de certo sua mãe ou seu pai entendam que chover é suficiente. Pra que mais, me pergunto enquanto cruzo caras e bocas sorridentes, pra que mais?”. E, ainda no mesmo conto, algo fantástico e quase inimaginável: “... ela me ensinou Mario Quintana. Eu gostava de falar da coisa sem dizer o nome da coisa, só assim, coisa. E depois do Quintana eu me senti menos singular. Pelo menos até saber que ele havia morrido. Depois pensei que talvez eu fosse sua reencarnação, porque eu também escrevia ideias. E coisas.” (p.99).

E, não fossem todas as demais passagens, só esta última já justificaria a leitura do livro, em “A menina roubada” (p.121): “Então eu era um grito. Uma imaginação. Compraram-me como um intangível. Eu estava no aplauso, estalando. Eu estava no silêncio de taças inquebráveis. Como um porcelanato eu me atirei contra meus princípios – num precipício estou caindo há vinte anos.” Uma prova do talento e da escrita incomum de Priscila Lopes. 

Outro dia li, numa das suas postagens, em sua página do Facebook, na qual Priscila contestava uma declaração equivocada de um leitor que dizia não haver escritores de talento na Literatura Brasileira contemporânea após Guimarães Rosa. Bons escritores existem e publicam. Falta, talvez, mais divulgação de seus trabalhos e, claro, interesse dos leitores em procurar algo novo e de qualidade. Best Sellers nunca foram garantia de qualidade. Mas me sinto na liberdade de dizer que Priscila Lopes está ao lado de muitos outros novos talentos da literatura brasileira contemporânea. Entre os quais, gosto de lembrar dos que já li: Paulo Scott, Luisa Geisler, Marcelino Freire, Ronaldo Bressane, Daniel Pelizzari, Clarissa Corrêa, e outros, muitos outros.

Priscila Lopes

Para saber mais sobre Priscila, acesse:




segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Quem pagou a conta? Francis Stoner Saunders


Livro que relata envolvimento de FHC com a CIA esgota edição


FHC é citado por três jornalistas quanto ao seu envolvimento com a espionagem dos EUA. Está esgotado nas duas maiores livrarias do Rio o livro da escritora Frances Stonor Saunders Quem pagou a conta? A CIA na Guerra Fria da cultura, no qual o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é acusado, frontalmente, de receber dinheiro da agência norte-americana de espionagem, para ajudar os EUA a “venderem melhor sua cultura aos povos nativos da América do Sul”. O exemplar, cujo preço varia de R$ 72 a R$ 75,00, leva entre 35 e 60 dias para chegar ao leitor, mesmo assim, de acordo com a disponibilidade no estoque. O interesse sobre a obra da escritora e ex-editora de Artes da revista britânica The New Statesman, no Brasil, pode ser avaliado ao longo dos cinco anos de seu lançamento.

Quem pagou a conta?, segundo os editores, recebeu “uma ampla cobertura pela mídia quando foi lançado no exterior”, em 1999. Na obra, Frances Stonor Saunders narra em detalhes como e por que a CIA, durante a Guerra Fria, financiou artistas, publicações e intelectuais de centro e centro-esquerda, num esforço para mantê-los distantes da ideologia comunista. Cheia de personagens instigantes e memoráveis, entre eles o ex-presidente brasileiro, “esta é uma das maiores histórias de corrupção intelectual e artística pelo poder”.

“Não é segredo para ninguém que, com o término da Segunda Guerra Mundial, a CIA passou a financiar artistas e intelectuais de direita; o que poucos sabem é que ela também cortejou personalidades de centro e de esquerda, num esforço para afastar a intelligentsia do comunismo e aproximá-la do American way of life. No livro, Saunders detalha como e por que a CIA promoveu congressos culturais, exposições e concertos, bem como as razões que a levaram a publicar e traduzir nos Estados Unidos autores alinhados com o governo norte-americano e a patrocinar a arte abstrata, como tentativa de reduzir o espaço para qualquer arte com conteúdo social. Além disso, por todo o mundo, subsidiou jornais críticos do marxismo, do comunismo e de políticas revolucionárias. Com esta política, foi capaz de angariar o apoio de alguns dos maiores expoentes do mundo ocidental, a ponto de muitos passarem a fazer parte de sua folha de pagamentos”.

Quem pagou a conta? está esgotado nas livrarias do Rio
Quem pagou a conta? está esgotado nas livrarias do Rio

As publicações Partisan Review, Kenyon Review, New Leader e Encounter foram algumas das publicações que receberam apoio direto ou indireto dos cofres da CIA. Entre os intelectuais patrocinados ou promovidos pela CIA, além de FHC, estavam Irving Kristol, Melvin Lasky, Isaiah Berlin, Stephen Spender, Sidney Hook, Daniel Bell, Dwight MacDonald, Robert Lowell e Mary McCarthy, entre outros. Na Europa, havia um interesse especial na Esquerda Democrática e em ex-esquerdistas, como Ignacio Silone, Arthur Koestler, Raymond Aron, Michael Josselson e George Orwell.

jornalista Sebastião Nery, em 1999, quando o diário conservador carioca Tribuna da Imprensa ainda circulava em sua versão impressa, comentou em sua coluna que não seria possível resumir a obra em tão pouco espaço: “São 550 páginas documentadas, minuciosa e magistralmente escritas”, afirmou.

Dinheiro para FHC

“Numa noite de inverno do ano de 1969, nos escritórios da Fundação Ford, no Rio, Fernando Henrique teve uma conversa com Peter Bell, o representante da Fundação Ford no Brasil. Peter Bell se entusiasma e lhe oferece uma ajuda financeira de US$ 145 mil. Nasce o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)”. Esta história, que reforça as afirmações de Saunders, está contada na página 154 do livro Fernando Henrique Cardoso, o Brasil do possível, da jornalista francesa Brigitte Hersant Leoni (Editora Nova Fronteira, Rio, 1997, tradução de Dora Rocha). O “inverno do ano de 1969″ era fevereiro daquele ano.
Há menos de 60 dias, em 13 de dezembro, a ditadura militar havia lançado o AI-5 e elevado ao máximo o estado de terror após o golpe de 64, “desde o início financiado, comandado e sustentado pelos Estados Unidos”, como afirma a autora. Centenas de novas cassações e suspensões de direitos políticos estavam sendo assinadas. As prisões, lotadas. O ex-presidente Juscelino Kubitcheck e o ex-governador Carlos Lacerda tinham sido presos. Enquanto isso, Fernando Henrique recebia da poderosa e notória Fundação Ford uma primeira parcela para fundar o Cebrap. O total do financiamento nunca foi revelado. Na Universidade de São Paulo, por onde passou FHC, era voz corrente que o compromisso final dos norte-americanos girava em torno de US$ 800 mil a US$ 1 milhão.

Segundo reportagem publicada no diário russo Pravda, um ano após o lançamento do livro no Brasil, os norte-americanos “não estavam jogando dinheiro pela janela”.

“Fernando Henrique já tinha serviços prestados. Eles sabiam em quem estavam aplicando (os dólares)”. Na época, FHC lançara com o economista chileno Faletto o livro Dependência e desenvolvimento na América Latina, em que ambos defendiam a tese de que países em desenvolvimento ou mais atrasados poderiam desenvolver-se mantendo-se dependentes de outros países mais ricos. Como os Estados Unidos”. A cantilena foi repetida por FHC, em entrevista concedida ao diário conservador paulistano Folha de S. Paulo, na edição da última terça-feira, a última de 2013.

Com a cobertura e o dinheiro dos norte-americanos, FHC tornou-se, segundo o Pravda, “uma ‘personalidade internacional’ e passou a dar ‘aulas’ e fazer ‘conferências’ em universidades norte-americanas e européias. Era ‘um homem da Fundação Ford’. E o que era a Fundação Ford? Uma agente da CIA, um dos braços da CIA, o serviço secreto dos EUA”.

Principais trechos da pesquisa de Saunders:

1 – “A Fundação Farfield era uma fundação da CIA… As fundações autênticas, como a Ford, a Rockfeller, a Carnegie, eram consideradas o tipo melhor e mais plausível de disfarce para os financiamentos… permitiu que a CIA financiasse um leque aparentemente ilimitado de programas secretos de ação que afetavam grupos de jovens, sindicatos de trabalhadores, universidades, editoras e outras instituições privadas” (pág. 153).
2 – “O uso de fundações filantrópicas era a maneira mais conveniente de transferir grandes somas para projetos da CIA, sem alertar para sua origem. Em meados da década de 50, a intromissão no campo das fundações foi maciça…” (pág. 152). “A CIA e a Fundação Ford, entre outras agências, haviam montado e financiado um aparelho de intelectuais escolhidos por sua postura correta na guerra fria” (pág. 443).
3 – “A liberdade cultural não foi barata. A CIA bombeou dezenas de milhões de dólares… Ela funcionava, na verdade, como o ministério da Cultura dos Estados Unidos… com a organização sistemática de uma rede de grupos ou amigos, que trabalhavam de mãos dadas com a CIA, para proporcionar o financiamento de seus programas secretos” (pág. 147).
4 – “Não conseguíamos gastar tudo. Lembro-me de ter encontrado o tesoureiro. Santo Deus, disse eu, como podemos gastar isso? Não havia limites, ninguém tinha que prestar contas. Era impressionante” (pág. 123).
5 – “Surgiu uma profusão de sucursais, não apenas na Europa (havia escritorios na Alemanha Ocidental, na Grã-Bretanha, na Suécia, na Dinamarca e na Islândia), mas também noutras regiões: no Japão, na Índia, na Argentina, no Chile, na Austrália, no Líbano, no México, no Peru, no Uruguai, na Colômbia, no Paquistão e no Brasil” (pág. 119).
6 – “A ajuda financeira teria de ser complementada por um programa concentrado de guerra cultural, numa das mais ambiciosas operações secretas da guerra fria: conquistar a intelectualidade ocidental para a proposta norte-americana” (pág. 45).
Espionagem e dólares
Não há registros imediatos de que o ex-presidente tenha negado ou admitido as denúncias constantes nos livros de Sauders e Leoni. Em julho do ano passado, no entanto, o jornalista Bob Fernandes, apresentador da TV Gazeta, de São Paulo, publicou artigo no qual repassa o envolvimento do ex-presidente com os serviços de espionagem dos EUA, sem que tivesse precisado, posteriormente, negar uma só palavra do que disse. Segundo Fernandes, “o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diz que ‘nunca soube de espionagem da CIA’ no Brasil. O governo atual cobra explicações dos Estados Unidos”.
“Vamos aos fatos. Entre março de 1999 e abril de 2004, publiquei 15 longas e detalhadas reportagens na revista CartaCapital. Documentos, nomes, endereços, histórias provavam como os Estados Unidos espionavam o Brasil.Documentos bancários mostravam como, no governo FHC, a DEA, agência norte-americana de combate ao tráfico de drogas, pagava operações da Polícia Federal. Chegava inclusive a depositar na conta de delegados. Porque aquele era um tempo em que a PF não tinha orçamento para bancar todas operações e a DEA bancava as de maiores dimensão e urgência”, garante Fernandes.
Ainda segundo o jornalista, o mínimo de “16 serviços secretos dos EUA operavam no Brasil. Às segundas-feiras, essas agências realizavam a ‘Reunião da Nação’, na embaixada, em Brasília”.
Bob Fernandes, que foi redator-chefe de CartaCapital, trabalhou nas revistas IstoÉ (BSB e EUA) eVeja, foi repórter da Folha de S.Paulo e do Jornal do Brasil, afirma ainda que “tudo isso foi revelado com riqueza de detalhes: datas, nomes, endereços, documentos, fatos. Em abril de 2004, com a reportagem de capa, publicamos os nomes daqueles que, disfarçados de diplomatas, como é habitual, chefiavam CIA, DEA, NSA e demais agências no Brasil. Vicente Chellotti, diretor da PF, caiu depois da reportagem de capa Os Porões do Brasil, de 3 de março de 1999. Isso no governo de FHC, que agora, na sua página no Facerbook, disse desconhecer ações da CIA no país”.
"Fonte-Correio do Brasil


http://domrocha.tumblr.com/post/75392617626/livro-que-relata-envolvimento-de-fhc-com-a-cia-esgota#.Uwt8ZoWlets

domingo, 3 de novembro de 2013

Pedagogia do Suprimido. Zeh Gustavo


A poesia pulsante e desconfortadora de “Pedagogia do Suprimido”
por Luciana Crespo Dutra


Há muitas razões para que uma leitura seja considerada agradável e um sem-número de motivos para que seja tida como instigante, desconcertante, desassossegadora. E aí está o maior mérito de “Pedagogia do Suprimido”, obra de Zeh Gustavo, publicada recentemente pela Editora Verve, do Rio de Janeiro.

Em meio a um panorama desumanizante em que, nas sociedades contemporâneas, os indivíduos se deixam consumir pelo mercado e se autoaniquilam, perdendo a própria identidade, surge uma escrita singular, transgressora, tematizando o cotidiano de sujeitos que, deslumbrados pelas facilidades advindas da modernidade e de uma educação midiática emburrecedora, acabam por suprimir a si próprios. Trata-se da escrita de Zeh Gustavo, marcada por um lirismo árduo, que se vale de fragmentos da memória, para dar forma a uma poesia pulsante e engajada, no sentido íntegro da palavra.

Com alusão direta a Paulo Freire, “Pedagogia do Suprimido” provoca questionamentos em relação à formação dos indivíduos e traça uma radiografia poética de um momento histórico infecundo, entorpecido e dopado por um consumismo desenfreado e por uma educação repleta de falhas em que estamos inseridos e contra a qual precisamos nos rebelar para que não sejamos igualmente extinguidos.

Fruto também de uma oportuna formação fracassada, latente na própria obra, o autor surge com sua linguagem própria e um estilo único, repleto de experiências sinestésicas, fazendo um uso peculiar do léxico e da estrutura sintática, e se valendo, com destreza, de neologismos necessários para garantir a autonomia de seus pontos de vistas e a produção de sentido de seu discurso libertador e libertário.

Em diálogo constante com a arte e ciente do seu potencial criativo, o poeta dá novo fôlego a ideais de humanidade cada vez mais esquecidos, ao entoar seus poemas com um timbre particular, dando voz a sujeitos que, por motivos vários, tiveram suas cordas vocais suturadas.

(*) Luciana Crespo Dutra – Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; colaboradora do Jornal A Notícia; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ.  

Fonte: A Notícia (São Luiz Gonzaga, RS, 14/10/2013).

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Cinquenta tons de cinza. E L James


Você Já Leu 50 Tons de Cinza?


Bom dia gente, tudo bem com vocês? Mais um post da Helô do delarosa.com.br e o assunto de hoje tem a ver com aquele objetivo de fazer do Brasil um país de leitores, afinal parece que de tempos em tempos a ideia dá certo e todo mundo começa a ler um livro… Estranho.


Eu não gosto muito de ler ficção, sou uma leitora bem ativa, mas normalmente me atenho aos corredores de política, economia, biografia e gastronomia, já que eu sou uma pentelha que gosta de praticar a vida real 100% do meu tempo livre. Mas na época que eu trabalhei em livraria, aprendi que livro algum faz mal e quanto mais a gente puder ler, melhor! Então sempre que esses livros surgem quase que do nada e conquistam públicos tão gigantes, que eu acabo lendo pra saber qual é. Foi assim com a saga Crepúsculo (não me crucifiquem), foi assim com as verdades politicamente incorretas e não poderia ser diferente com Fifty Shades of Grey, primeiro volume de uma trilogia, que chegou em português às livrarias no dia 1º de agosto, com o título 50 Tons de Cinza e pela editora Intrínseca (que sempre foi minha editora favorita).


O livro da moda é a estreia literária da inglesa E L James — uma ex-executiva da TV londrina, mãe de dois filhos adolescentes, aparentemente inofensiva e recentemente eleita uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time —, a trilogia teve direitos de publicação adquiridos por 37 países em leilões disputadíssimos. Os livros Cinquenta tons de cinza, Cinquenta tons mais escuros e Cinquenta tons de liberdade serão adaptados para o cinema pela Focus Features, da Universal Pictures — os direitos foram comprados por um valor recorde de US$5 milhões e a Emma Watson é uma das possíveis atrizes para interpretar a mocinha da trama. Quando eu tive contato com os números pela primeira vez, achei que fosse alguma coisa sobre uma nova criatura, afinal vampiros já caíram na monotonia e a vida real parece não ganhar mais o coração de jovens adultos, como antes, porém para o meu choque e desespero a trilogia trata apenas de… Sexo e sadomasoquismo.


A estorinha narra a relação entre uma recatada jovem de 22 anos que acaba de se formar na faculboate e um enigmático (e maluco) empresário. Estimulada a desafiar seus limites e preconceitos, Anastasia Steele contrapõe a irresistível atração que sente por Christian Grey — um bilionário muito charmoso, brilhante e, ao mesmo tempo, intimidante — às singulares exigências sexuais que ele impõe, a começar por um contrato assinado que permite a Grey o controle completo de sua vida. Acho lei Maria da Penha! É tão engraçado pensar que as revistinhas Sabrina existem há décadas e agora pagam 5 milhões de dólares para lançar um filme cujo roteiro é tão parecido hahahahaha.


Agora vamos aquela parte que não interessa tanto, mas é o que faz a internet acontecer: opiniões pessoais! Ví no Twitter que a Kah está detestando o livro e comigo não foi muito diferente. Assumo que provavelmente irei acabar de ler a trilogia inteira porque não tenho mais nada pra fazer, mas vale ressaltar também que caso me convidem para encher bexigas de uma festa infantil, essa atividade substituirá tranquilamente a leitura da série. Eu não tenho interesse em ler a experiência sadomasoquista alheia e tampouco deixaria minha filha adolescente ler, mas cabe a você mamãe e adolescente dona do próprio nariz, decidir o que prefere. Não tem nada de errado, de anormal ou de tabu em fazer sexo com um homem mais velho e milionário em meio a correntes e outros objetos esquisitos, ninguém vai julgar você. Só me espanta a quantia de pessoas que estão interessadas por isso nesse exato minuto e que consideram este o assunto mais legal das suas vidas no ano de 2012. Gosto de livros que me ensinem coisas e, por mais que o mocinho da história tenha tido problemas na infância para agir de forma tão tirana com a mocinha, não acredito que a lição de vida contida vale a leitura. Leia apenas se você quiser… Levitar em uma nuvem de paixão tórrida, digamos assim rs.


Eu sou muito tradicional no que diz respeito a esses assuntos, o mais perto que eu deixo uma festa fetichista chegar da minha casa é no episódio de A Liga e mesmo assim se eu estivesse na casa da minha mãe, com meu irmão pequeno, não assistiria hahahahaha. Porém talvez você esteja solteira, ocupada demais para flertar ou de férias num iceberg, nesse caso a leitura da trilogia 50 Tons de Cinza é mais do que recomendada para passar o tempo, aquecer o coração e ficar viajando sobre como você gostaria que estivesse a sua vida sexual ultimamente (ou não). Mas não se engane: se o que você realmente quer é literatura erótica, leia Mario Vargas Llosa, além de ser mais interessante e sedutor já ganhou prêmio Nobel.


Claro que tudo isso é a minha opinião, estou apenas contanto como foi a minha experiência com o livro e toda a repercussão que ele teve. E se você ficou curiosa, vá em frente, compre e leia, porque milhares de garotas já me falaram que adoraram e não tiro o crédito delas, afinal não dá pra negar quando uma autora realiza um feito editorial do tamanho desses: ela tá de parabéns! Nos Estados Unidos, os resultados de venda já são tão eletrizantes quanto a narrativa do thriller romântico de E L James: é a primeira escritora da história a ter três de seus livros com vendas superiores a 100 mil cópias em uma mesma semana. Desde março sua apimentada trilogia já acumulou 31 milhões de exemplares vendidos apenas em língua inglesa, número que faz da série um dos maiores best-sellers de todos os tempos. Aqui no Brasil, o primeiro volume já é encontrado em todas as livrarias e os dois próximos já estão em pré-venda. Para mais informações, vale a pena entrar no site da Intrínseca.


E você: já leu, vai ler, quer ler, quer correr para um planeta distante? 

Hahahaha, beijo e até semana que vem
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Nota da Kah: Eu estou na metade do primeiro livro, comprei o box em inglês com os 3 livros. Até agora, concordo em com cada palavra da Helo e da Tati(vou postar o vídeo dela abaixo) em gênero e grau.


A linguagem do livro é adolescente, e o conteúdo adulto. Eu achei que houve uma divergência muito grande, tipo você que é mais crescida, não vai gostar da enrolação do livro e de todo o mimimi amo não amo, quero não quero, recebi um email dos meus pais, liguei para minha mãe ela disse isso e aquilo. Você que é mais nova vai achar o livro pesado, porque as coisas acontecem assim OI ACONTECEU e você fica pensando WTF?! Como eles chegaram aqui?


Estou tentando de verdade continuar a ler o livro até o final, estou na parte do: “Oi quer ter um relacionamento comigo? Assina um contrato então”. Mas até agora eu não estou gostando mesmo. O comecinho é legal até, mas realmente enrola demais. Eu acho que ela enrola nas partes erradas sabe?


Enfim, se eu terminar de ler os 3 livros vou gravar um vídeo falando sobre isso! :)


Em: 23/08/2012
Postado por Heloisa
Fonte:  http://eaibeleza.com/2012/08/voce-ja-leu-50-tons-de-cinza/ 



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A Arte Abstrata. Mel Gooding


NOVAS MANEIRAS DE DECLARAR O QUE É O CASO
 
Toda arte é abstrata, no sentido de que toda arte se envolve no mundo e nos aspectos abstratos dele para nos apresentar um objeto ou acontecimento que aviva ou ilumina nossa apreensão do mundo. “O mundo é tudo que é o caso”, escreveu Ludwig Wittgenstein, no início de um projeto filosófico que começou como um esforço para descrever logicamente o mundo e terminou com reflexões a respeito da natureza problemática da própria linguagem que devemos usar quando formos descrever o que quer que seja.
O progresso de uma arte da representação para a da abstração de certa maneira ocorreu paralelamente a essa busca moderna quintessencial por um novo tipo de verdade. “Tudo que é o caso” inclui a natureza e a sociedade, o ambiente construído, as estruturas da religião, da arte e da ciência, e todos os maravilhosos e mundanos atos, pensamentos e emoções, especulações e imaginações que compreendem uma cultura humana complexa.
A partir dos primeiros anos do século xx, pintores e escultores nas tradições européias de arte, mais do que em qualquer época desde a Renascença, buscaram de modo consciente formas radicalmente novas de representar sua experiência do mundo. Eles se lançaram à criação de uma arte que revelaria aspectos da realidade que pareciam inacessíveis às técnicas e convenções da arte figurativa.
A grande e duradoura idéia de que a pintura e a escultura poderiam retratar a realidade do mundo por meio da imitação iluminadora (mimese), ou da representação ilusionista de fenômenos naturais, foi de repente posta em dúvida. Muitos artistas viam a representação figurativa como uma limitação a sua capacidade de representar as realidades da experiência, incluída a experiência espiritual, com o tipo de intensidade ou clareza que revelaria sua verdadeira natureza. Além disso, os artistas sentiram necessidade de levar em consideração realidades novas então reveladas pela ciência, dinâmicas recentemente descobertas pela matemática e pela física, novas idéias em psicologia, desenvolvimentos pós-darwinianos na biologia, na religião e no que se costumava chamar de “filosofia natural”. Eles estavam sensíveis também à nova política da social-democracia, do comunismo e da liberdade individual. Estavam conscientes das grandes mudanças na tecnologia industrial, do início dos vôos tripulados, do motor a combustão interna, da fotografia e do cinema. As cidades nas quais viviam estavam numa condição de transformação dinâmica. Tudo isso trouxe como conseqüências a rejeição das velhas formas de arte que buscavam imitar a aparência das coisas e a invenção de novas formas que revelariam as relações ocultas entre as coisas. Objetos são objetos; eles podem ser retratados, mas representar as relações dinâmicas entre os objetos exigia uma linguagem visual abstrata.
Isso não significa que os artistas no início do novo século compreendessem plenamente, ao modo dos teóricos, cientistas e outros especialistas, os variados desenvolvimentos intelectuais, espirituais e tecnológicos que estavam ocorrendo. Nem precisavam. Os artistas têm seu próprio trabalho a fazer, pesquisas intuitivas específicas a realizar. O que havia era que algo de muito excitante estava no ar e que a palavra novo se aplicava a quase tudo que estava acontecendo. Ao lado da palavra “moderno”, ela se tornaria uma das palavras-chaves afirmativas do século, um talismã verbal, tanto para os artistas como para os críticos. Este livro enfocará aquilo que inúmeros artistas muito diferentes do século xx, trabalhando em lugares diferentes com diferentes idéias e intenções, produziram em resposta à grande imposição modernista “Faça o novo!”.
A originalidade criativa, para os artistas modernos, estava sujeita aos imperativos de autenticidade: resposta às exigências da vida interior, engajamento verdadeiro na realidade externa e liberdade de enunciação. Essa ênfase sobre a experiência individual tornava inevitável que as obras assumissem muitas formas diferentes e que o que pensavam sobre o significado e os propósitos da arte fosse correspondentemente diverso. Efetivamente não houve nenhum “movimento abstrato” enquanto tal, mas muitas manifestações de uma tendência poderosa da arte moderna para longe da representação de objetos reconhecíveis no espaço pictórico (não importa em que estilo ou maneira) e em direção à apresentação da pintura ou da escultura como um objeto real no espaço real. 
Alguns artistas acreditavam que tal objeto poderia mesmo emanar uma espécie de energia, sensual ou espiritual e ativar o espaço ao seu redor. A disposição de linhas, os formatos e as cores na tela, ou as formas esculturais puras no espaço, tendo sido abstraídas da natureza, operavam agora diretamente sobre o espectador, como faziam os fenômenos naturais da luz, da cor, da textura e do movimento. Alguns sentiam que a obra de arte abstrata poderia induzir a um sentimento do numinoso ou do transcendente e ocupar um lugar na vida espiritual entre os objetos sagrados ou os icones do passado. (páginas 6 e 7)