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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ. Zé Urbano


Gramática? Sintaxe? Semântica? Não. Pode esquecer! Isso não existe no universo enigmático do escritor Zé Urbano. Não como nós conhecemos estruturalmente o nosso idioma. Não há possibilidade de se fazer comparações. Talvez, numa vã tentativa, um perigoso paralelo com “Memórias Sentimentais de João Miramar”, mas não, sem contar que Oswald de Andrade era um louco (ou quase isso). Epa! Loucura. Pode estar aí o liame, o fio de seda que pode nos mostrar um caminho interpretativo mais seguro. Essa mania dos “normais” (que se acham os tais) de ter certeza do tipo de chão que pisam. Por falar em chão, em Zé Urbano ele é movediço. O escritor apenas nos mostra um caminho, mas ele é sinuoso e muito traiçoeiro e há que se cuidar das minas que estão espalhadas no percurso e muito bem camufladas.


Irônica, debochada, e (por que não?) escatológica. Em seu livro intitulado “ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ” (pasmem, mas nem tanto), a “poética” de Zé Urbano é impactante, desafiadora e a obra poderia ser iniciada com uma breve advertência: “decifra-me se puderes!”. É como se recebêssemos um alfabeto inteiro para criarmos uma nova língua, partindo do zero absoluto. E Zé Urbano parece ser de outro mundo, de outro planeta ou de uma dimensão paralela para a qual o livro é apenas uma porta de acesso. Ah! Se Stephen King lesse mais do que escreve, provavelmente ficaria feliz em encontrar Zé Urbano. Terminamos o livro e nos vem à mente uma pessoa, meio-moleque daqueles que fedem vergamota (talvez o autor) rindo de nós, longe do nosso alcance (inteligentemente), exibindo um dedo em riste. Mas não nos irritamos, nem tampouco nos indignamos, apenas rimos. Talvez, rimos da nossa teimosa incapacidade de nos deixar levar pelo texto. Rimos da nossa pequenez como leitores ainda presos ao passado, incapazes de bem compreender o presente, quanto mais o futuro. E o “non-sense” (tão na moda) nos vem como explicação, mas é apenas estilístico e só nos ajuda realmente como um último recurso para descobrirmos o tamanho da nossa limitação. Zé Urbano está aí para nos mostrar que há um mundo inteiro, completamente diferente, muito além daquele percebido pelo nosso limitado ângulo de visão. Falei demais? Então, que tal curtir um pouco do próprio Zé Urbano, retratando o seu mal, pois, segundo ele mesmo: “...sofro de biscoitos ininteligíveis.” (p.98, in “As Momescas Cabriolagens do Mundo” – 2005).


“ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ (2005)


Himgróla, qomo qontinuar?

Sobrelhevêm as respostas aos borbolhetônes:

Morderei pãopãoqueijoqueijo

Sempre que a me convinher

Mastigarei Abcdefghijklmnopqrstuvwxyz

Incluindo alfa beta e cetéras

E assim brótarãolhesestes vérsínios

Tais quais qe lhes agradem e agradem e adragem.


Á annos ñao páÁÁra de rodar o wellocípe na garagem

Use carpas na estiagem

Feche boca na mastigagem

Atemsão clace repete comigo


ABCDEF é: Abequidef – ABEQUIDEF!

GHIJKL é: Guíjcle – GUÍJCLE!

MNOP é: Minópe – MINÓPE!

QRSTUVW é: Cristúve – CRISTÚVE!

XYZ é: Csíz – CSÍZ!


TODOS! Abcdefghijklmnopqrstuvwxyz. RÁPIDO!

ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ


MAIS RÁPIDO!

ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ

ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ” (p.122)



“... Sinco! Sei, seis! Sete!

Sente o impacto da pedra na cabeça!

É dramático,

É impressionante,

Refiro-me a Dante,

Já leu, monstrão nojentaço?

Não? Sim? Não? Sim?

Sim! Sim! Sim! Sim!

Beterrabas transgêêêêêêêêêênicaaaaaas!!!!” (in “A mil” – 2008 – p. 118)



“Eu conheço a Heloísa

vive cheia de coriza

mas ela nunca me avisa

quando vai soltar um escarro.” (p.92 in “Heloísa” – 2002)



“Hoje em dia

Eu passeava antigamente

Quase chegando

Ao ponto de partida” (p.11 in “Pequeno Enigma de Einstein”)


E por aí vai. Trata-se de um livro desafiador. Para leitores acostumados com o que a boa literatura nos apresenta. Não digo que agradará a todos, mas como já disse Nelson Rodrigues: “Toda a unanimidade é burra.” Vale, isto sim, ler e tirar sua própria conclusão. Quem sabe não começamos a olhar o mundo com outros olhos, mesmo que sejam vesgos ou... furados.


O livro “ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ”, de Zé Urbano é de 2009, publicado pela editora Ibis Libris, Rio de Janeiro. Zé Urbano é o pseudônimo de Gustavo Jobim. Mais sobre o autor acesse:


http://www.fotolog.com.br/zeurbano

http://zeurbano.blogspot.com/

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Pequeno gafanhoto biografado. Valdemir Klamt


Livro de um autor brilhante, dono de um talento incomum, que, para começar, sofre “de constantes intoxicações de palavras./ Pimenta, pitanga e prego são as mais vene
nosas”(p.30) e que, discretamente, “Implor(a) não ser.” (p.31). Brincar de deus é bom e divertido (e eu gosto - do brinquedo e do resultado!). Quem escreve ou apenas aprecia a boa literatura sabe do que falo. Criar personagens, histórias, enredos, ser o “Senhor” da vida e da morte das próprias criaturas é algo fascinante e vem seduzindo muita gente há séculos. Só experimentando mesmo um pouco desse entorpecente ato de escrever para saber exatamente do que digo. Claro que não basta dominar o idioma, é preciso mais, muito mais. A literatura não se resume à sintaxe, à semântica, decoreba de dicionário. Há até que se deixar levar (quase sempre) pela própria obra (vide a teoria do “Inconsciente do Texto” – contestável, sei, mas!). E, em “Pequeno gafanhoto biografado”, Valdemir Klamt põe em prática sua experiência, sua formação pessoal e acadêmica, numa aventura (odisséia, talvez) impar, inédita, levando o leitor a vivenciar o que parece ser inimaginável. Em seus versos de “quase-prosa”, Valdemir Klamt seduz, hipnotiza e reduz o leitor, para que possamos ver o mundo sob outro prisma. Valdemir Klamt é um sobrevivente (mais um, ainda bem!) da castradora teoria daqueles que se sujeitam à formação acadêmica. E ainda há quem pense que a formação em Letras é necessária ao ofício de escrever. Ledo engano!


“Pequeno gafanhoto biografado”, de Valdemir Klamt vem com “Pretexto”, em substituição ao tradicional prefácio, justificando a obra com uma história de um ataque de uma praga de gafanhotos a destruir uma plantação de aipim. Depois o livro é dividido em três partes: “Investigações”, “Desejo de ser gafanhoto” e “Fita métrica”. O resultado é um livro meio emblemático, quase um livro de divagações (ou reflexões) filosóficas. Alcides Buss, teorizando nas orelhas, faz uma interpretação mais técnica da obra e diz: “... uma poética de indagações. Mais do que uma incursão kafkiana, esta imagem nos encaminha, pouco a pouco, par uma compreensão inusitada dos avessos da existência. As imagens, ao contrário de se perderem nos labirintos da insignificância, vão descerrando os anéis que os unem, ou os separam, nas entrelinhas da vida (e da morte).”


A poética de Valdemir Klamt, neste livro, como o próprio título da obra, traz, através do “gafanhoto”, frequentes recorrências, evitando que o leitor se perca no caminho e, ao mesmo tempo, não o deixa esquecer do tempo para reflexão:

“Nascer pequeno é diferente/ Pior é viver pequeno./ Há quem morre miúdo.”(p.15);

“Toda noite me desfaço de mim/ Ponho meu corpo num cabide./ Enxáguo a alma de gafanhoto.”(p.16);

“Eu me tornei mais gafanhoto depois/ que passei a criar sacis-pererês./ Sacis alimentam-se de incorpóreo/ e de pobres amores,” (p.19);

“Castiguem os homens para não ousarem./ Façam caber na forma quem possui gordura.”(p.29);

“Passarei férias no manicômio dos grilos./ Descobri que minha perna torta é um defeito./ Imaginem se descobrem que tenho desvio de personalidade!” (p.30);

“A coisa mais azul é um corpo em queda livre do décimo nono andar.” (p.37);

“Sou um ser inibido, retraído e calculista./ Desconheço como cheguei à serenidade,/ sequer sei a maneira como se atinge a idade/ que tenho e por quê o terror da velhice.” (p.39).


E há mais, muito mais poesia de qualidade em “Pequeno gafanhoto biografado”. Lembro que meu contato com o livro foi, primeiramente, pelo título, no catálogo da Editora Escrituras, quando o ganhei para escolher livros para resenhar para o site Leia Livro (hoje extinto). E, hoje, depois da terceira leitura, posso afirmar categoricamente que Valdemir Klamt é mais um integrante da nova poética brasileira contemporânea. Santa Catarina agora tem um representante de peso. Junta-se aos gaúchos Carpinejar e Paulo Scott, e aos cariocas (ou fluminenses) Zeh Gustavo e Gustavo Jobim (Zé Urbano).


“Valdemir Klamt nasceu em 1976 e formou-se em Letras pela UFSC. Atualmente mora em Florianópolis/SC e é pós-graduado em Teoria da Literatura pela mesma universidade.”


O livro “Pequeno gafanhoto biografado” é de 2002, editado por Escrituras, São Paulo. Tem ilustrações de Márcia Cardeal, que também produziu a capa.