| "Enviado por Adriana em 01/03/2008 00:00:00 (3443 leituras) Notícias do mesmo autor | |
O relançamento de “O Caçador de Andróides” é uma ótima chance para se adquirir este que é o romance original do filme de Ridley Scott de 1982, e que andava somente disponível nos sebos, desde a edição da saudosa e falida editora Francisco Alves. É também uma chance de descobrir o autor Phillip K. Dick, escritor de uma inquietante Ficção-Científica que mexe diretamente com questões como o valor de nossa própria identidade. Dick teve suas obras adaptadas em filmes comerciais de maior ou menor sucesso e fidelidade com o texto original, como O Vingador do Futuro, Screamers, Impostor (2002), Dia de Pagamento (2003), Minority Report – A Nova Lei (2002) e, mais recentemente, O Homem Duplo (2006), experiência em animação cuja obra original mais fala sobre o contato do autor com a contracultura das drogas nos anos 60. A televisão e o rádio têm uma importância fundamental na vida desses humanos. O programa mais assistido de todos – Buster Friend and his Friendly Friends – é a maneira que o autor encontra para criticar o conteúdo vazio da televisão, e essa crítica nos parece absurdamente familiar. Buster, o apresentador, está no ar vinte e quatro horas por dia, todos os dias, incansável como um andróide. Seus convidados são atrizes e atores que jamais fizeram qualquer filme, novela ou o que o valha, mas que sempre estão prontos a comentar os assuntos mais importantes. Para a maioria das pessoas, a opinião deles vale alguma coisa, quando tudo indica que não deveria ser assim. No fundo, o que vemos é um amontoado dos nossos big brothers transportados para um romance de ficção científica escrito décadas atrás. E isso prova a permanência e a força crítica do texto de Dick. Além da televisão, os humanos dispõem de um aparelho capaz de controlar o ânimo das pessoas. Isso significa que cada um simplesmente escolhe se quer ou não acordar disposto, ou estar pronto para o sexo, ou se deseja ou não ir trabalhar, por exemplo. Tudo isso somente apertando um botão. É interessante que logo no primeiro capítulo o autor explora com brilhantismo, através de um diálogo mordaz, cheio de subentendidos, os efeitos que isso pode provocar nas pessoas. Acabamos por rir do absurdo que é ter a habilidade de controlar nossas próprias emoções. O personagem principal da história é Rick Deckard, habitante de São Francisco. Deckard é um caçador de recompensas que trabalha para a polícia e que tem por função encontrar e “retirar” os andróides rebeldes que, disfarçados de humanos, fugiram das colônias e vieram para a Terra. Ele acaba por sair de uma vida medíocre como funcionário público, de um casamento insignificante, para se envolver na caçada aos piores andróides de que se tem notícia, além de ter que lidar com a corporação trans-planetária que os criou e com seus próprios problemas financeiros, matrimoniais e identitários. A personalidade de Deckard é bem construída e crível. No princípio ele é apenas aquele caçador de recompensas que vê os andróides como o mal absoluto. No decorrer da história, no entanto, ele passa a se questionar sobre a validade de seus argumentos. E por fim acabará tendo mais desprezo por alguns humanos do que por determinados andróides. Antes do fim, na verdade, estará mesmo se questionando sobre sua própria identidade enquanto ser humano. E esse desenvolvimento é trabalhado de tal maneira que acreditamos nele. Graças ao fato de Rick ser um homem prático e sensato, com uma visão de mundo tão racional, seu desenvolvimento se torna verossímil, aceitável, o que nos leva a compartilhar os seus dramas e entender as suas dúvidas e sofrimentos. É essa verossimilhança que faz o seu drama ter tanta força e ser tão comovente. Quanto à estrutura mesma do romance, podemos dizer que ele é bem construído e estruturado. Dick inicia o livro com um capítulo, de certa maneira, tragicômico, construído em cima de um diálogo inteligente e de uma crítica mordaz. Antes de terminar de lê-lo por completo já estamos presos à leitura, já queremos saber os porquês e comos do espaço-tempo da narrativa. E isso nos vem logo em seguida. Então, depois de nos localizar e dar as devidas explicações, o autor nos envolve em uma trama, cheia de altos e baixos, repleta de reviravoltas, que nos deixa na ponta da cadeira. O texto, apresentando as inúmeras possibilidades de fracasso de Deckard, cria no leitor a expectativa de que o caçador de andróides irá falhar mesmo antes de iniciar a sua caçada. Então, faz Rick superar todas as dificuldades para depois capturá-lo em uma armadilha, limitando todas as suas possibilidades de ação e, enfim, num átimo, mostra como o personagem escapa da complexa situação em que se meteu. Somente este trecho do livro, que se estende pelos capítulos quatro e cinco, já vale toda a história. É muito divertido e emocionante. Mas não é “somente” a isso que se resume o livro de Dick. O autor usa a ficção científica para levantar uma série de questionamentos de ordem social e humana. As relações entre os humanos, a relação dos homens com as máquinas, o avanço irrefreável da tecnologia, a relação do homem com a natureza e com os animais e a própria questão identitária do homem enquanto ser humano. Tudo isso é questionado, criticado e discutido. E melhor: feito dentro da estrutura do romance, o que nos leva a uma leitura agradável e instigante, da qual não conseguimos nos desprender. Por fim, basta dizer que os fãs do filme devem estar prevenidos, entretanto, de que para questões de adaptação e transposição de mídias, certas coisas foram bastante mudadas, independente das versões de produtor ou diretor: só se pra se ter uma idéia, a climática perseguição entre o replicante Roy Batty e Rick Deckard simplesmente não existe no livro. Isto por que a trama original e seus questionamentos vão além do que é demonstrado no filme: dado momento, a questão se o próprio Deckard é ou não um ser humano ou um replicante é bem explorada, e esse tipo de questionamento vai-se história afora. Isso não desmerece o filme como adaptação, entretanto. Ao filmar a trama mais como se fosse um policial noir no futuro, o filme é tido como uma das obras referenciais para o início da Ficção-Científica cyberpunk, enquanto o livro tem um pé mais nos anos 60-70: ambas as versões podem ser vistas dentro de seu contexto e representação das épocas em que foram produzidas. Dados Técnicos Livro: O CAÇADOR DE ANDRÓIDES Autor: Philip K. Dick Editora: Rocco Tradução: Ryta Vinagre Páginas: 256 Formato: 13 x 20 Notas (de 1 a 6) - Trama: 6 - Texto: 6 - Narrativa: 6 Nota Final: 6" (Fonte: Rede RPG.) |
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
O Caçador de Andróides. Philip K. Dick
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Homem procura menina e outras estórias. Júlio Gavinho
Fantástico! Surpreendente! Um dos melhores livros que já li. Sério. Li, há vários anos, o conto chamado “O casamento e a cozinha” e fiquei impressionado. A harmonia do texto, a narrativa confessional, a conquista amorosa, o aroma dos temperos, o sexo, a irrelevância do crime. Como poderia um escritor estruturar um texto daquela forma? Questionei-me na época e distribuí para quem gosta de uma boa leitura. Houve unanimidade. Um sucesso. Até que, muito recentemente, resolvi procurar o livro, conhecer o autor. Achei, mas não foi fácil, apenas em um site, num universo tão grande, havia algo. Estava lá. Como uma pedra preciosa perdida numa imensidão de areia. “Homem procura menina e outras estórias”. Júlio Gavinho é o autor da proeza. Sabem o que é demorar 5 ou 6 anos para encontrar um livro. Foi o tempo que levei. Tenho uma relação meio enigmática com o livro. Talvez alguém adepto da teoria das reencarnações diga que eu devo ter sido algum livreiro, bibliófilo ou coisa parecida em outra vida. Mas é bobagem perder tempo com isso. Vale a leitura, uma boa e recomendada leitura.
Ao comprar o livro pela internet, ainda tinha dúvida se o conto “O casamento e a cozinha” estava no livro. Foi uma compra no escuro. E, para minha felicidade, estava lá, junto com outros 12 contos, todos com uma similaridade, qualidade e riqueza em detalhes que impressionam. O talento de Júlio Mendes Gavinho (1968) é incontestável. Pasmo pela pouca informação na internet a respeito de um escritor tão fantástico, que sabe escrever como poucos. Particularmente, acho até que o livro deveria se chamar “O casamento e a cozinha e outras estórias”, pela constância dos detalhes gastronômicos utilizados pelo autor. Quem lê o livro e assistiu ao filme “Estômago” (2007) notará algumas semelhanças. Como o próprio autor chega a dizer: “a segunda coisa mais importante na vida, o alimento”. Mas não é qualquer alimento, é a arte de bem cozinhar, com tudo o que há de mais nobre, seja nos ingredientes, ou nos temperos e nos acompanhamentos. Vinhos, uva, marca, safras. Estão aí disponíveis para todos. Com Júlio Gavinho não há “Prato Feito”, “arros-com-feijão”. A culinária em “Homem procura menina e outras estórias” dá um ingrediente inovador nas narrativas, o aroma dos temperos, o prazer de “ver” um prato bem preparado, a arte da gastronomia associada à literatura. Uma combinação perfeita. Até não sei como ainda ninguém descobriu uma obra tão harmônica e sugestiva, parecem até roteiros cinematográficos. Os contos de Júlio Gavinho dariam ótimos filmes. Carioca da gema, o autor se mantém ao ambiente do Rio de Janeiro. Há violência, prostituição, drogas, dilemas existenciais, sexo e culinária. É a arte da gastronomia em seu nível mais nobre. Associar o enredo do nosso cotidiano com os detalhes gastronômicos, sem jamais perder a fluidez da narrativa é difícil e requer uma competência e um talento raro. É o caso de Júlio Mendes Gavinho em “Homem procura menina e outras estórias”.
Numa das orelhas do livro há algo que tenta resumir o conteúdo amplo das “estórias” de Júlio Gavinho: “Percorrer as páginas de Homem procura menina e outras estórias é como estar sozinho à noite pelas ruas de Copacabana, ou do Leblon ou de qualquer outro lugar do mundo . Pode ser Nova York ou Paris. Pode ser o subúrbio de São Paulo ou de Santos. Pode ser qualquer lugar que tenha gente. Feliz. Infeliz. Pobre ou rica... Imperdível, dentro desse contexto, a narrativa desse autor, com uma dialética existencial que deixa o leitor sem fôlego. O livro, os personagens, as situações e os descritivos demonstram um autor maduro, apesar dos seus 36 anos de idade.”
Há pouca informação sobre este magnífico escritor na internet, não consegui saber se publicou outros livros ou se ainda escreve e o que faz atualmente. É pena, pois são escritores como Júlio Mendes Gavinho que deveriam estar nas listas dos livros mais vendidos. E não aqueles livros chatos de 500 páginas, “enlatados” americanos, escritos a doze mãos, com uma equipe de 100 pessoas só para Marketing de vendas, e muitos trouxas compram achando que “aquilo” é literatura. Ás vezes ser “leigo” é dose, mas fazer o quê?
Pois então: “Homem procura menina e outras estórias” é uma excelente dica de leitura, garantia de bom entretenimento, seja para quem gosta simplesmente de ler, ou para quem gosta de cozinhar, e, claro!, para quem literalmente devora livros, como eu! O livro foi publicado em 2004, pela Germinal Editora, 13 estórias, 180 páginas. Disponível pela internet na Livraria Cultura.
