NOVAS MANEIRAS DE DECLARAR O QUE É O CASO
Toda arte é abstrata, no sentido de que toda arte se envolve no mundo e nos aspectos abstratos dele para nos apresentar um objeto ou acontecimento que aviva ou ilumina nossa apreensão do mundo. “O mundo é tudo que é o caso”, escreveu Ludwig Wittgenstein, no início de um projeto filosófico que começou como um esforço para descrever logicamente o mundo e terminou com reflexões a respeito da natureza problemática da própria linguagem que devemos usar quando formos descrever o que quer que seja.
O progresso de uma arte da representação para a da abstração de certa
maneira ocorreu paralelamente a essa busca moderna quintessencial por um novo tipo
de verdade. “Tudo que é o caso” inclui a natureza e a sociedade, o ambiente
construído, as estruturas da religião, da arte e da ciência, e todos os maravilhosos
e mundanos atos, pensamentos e emoções, especulações e imaginações que
compreendem uma cultura humana complexa.
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A grande e duradoura idéia de que a pintura e a escultura poderiam retratar
a realidade do mundo por meio da imitação iluminadora (mimese), ou da representação
ilusionista de fenômenos naturais, foi de repente posta em dúvida. Muitos
artistas viam a representação figurativa como uma limitação a sua capacidade de
representar as realidades da experiência, incluída a experiência espiritual,
com o tipo de intensidade ou clareza que revelaria sua verdadeira natureza.
Além disso, os artistas sentiram necessidade de levar em consideração
realidades novas então reveladas pela ciência, dinâmicas recentemente
descobertas pela matemática e pela física, novas idéias em psicologia,
desenvolvimentos pós-darwinianos na biologia, na religião e no que se costumava
chamar de “filosofia natural”. Eles estavam sensíveis também à nova política da
social-democracia, do comunismo e da liberdade individual. Estavam conscientes
das grandes mudanças na tecnologia industrial, do início dos vôos tripulados,
do motor a combustão interna, da fotografia e do cinema. As cidades nas quais
viviam estavam numa condição de transformação dinâmica. Tudo isso trouxe como
conseqüências a rejeição das velhas formas de arte que buscavam imitar a
aparência das coisas e a invenção de novas formas que revelariam as relações
ocultas entre as coisas. Objetos são objetos; eles podem ser retratados, mas
representar as relações dinâmicas entre os objetos exigia uma linguagem visual
abstrata.
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Alguns artistas acreditavam que tal objeto poderia mesmo emanar uma espécie
de energia, sensual ou espiritual e ativar o espaço ao seu redor. A disposição
de linhas, os formatos e as cores na tela, ou as formas esculturais
puras no espaço, tendo sido abstraídas da natureza, operavam agora diretamente
sobre o espectador, como faziam os fenômenos naturais da luz, da cor, da
textura e do movimento. Alguns sentiam que a obra de arte abstrata poderia
induzir a um sentimento do numinoso ou do transcendente e ocupar um lugar na
vida espiritual entre os objetos sagrados ou os icones do passado. (páginas 6 e 7)
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