terça-feira, 21 de agosto de 2012

O Livro de São Cipriano


A lenda de São Cipriano - O Feiticeiro - confunde-se com um outro célebre Cipriano imortalizado na Igreja Católica, conhecido como Papa Africano. Apesar do abismo histórico que os afasta, as lendas combinam-se e os Ciprianos, muitas vezes, tornam-se um só na cultura popular. É comum encontrarmos fatos e características pessoais atribuídas equivocadamente. Além dos mesmos nomes, os mártires coexistiram, mas em regiões distintas. 

Cipriano – O Feiticeiro - é celebrado no dia 2 de Outubro. Foi um homem que dedicou boa parte de sua vida ao estudo das ciências ocultas. Após deparar-se com a jovem (Santa) Justina, converteu-se ao catolicismo. Martirizado e canonizado, sua popularidade excedeu a fé cristã devido ao famoso Livro de São Cipriano, um compilado de rituais de magia. 

A fantástica trajetória do Feiticeiro e Santo da Antioquia, representa o elo entre Deus e o Diabo, entre o puro e o pecaminoso, entre a soberba e a humildade. São Cipriano é mais que um personagem da Igreja Católica ou um livro de magia; é um símbolo da dualidade da fé humana.

O Feiticeiro

Filho de pais pagãos e muito ricos, nasceu em 250 d.C. na Antioquia, região situada entre a Síria e a Arábia, pertencente ao governo da Fenícia. Desde a infância, Cipriano foi induzido aos estudos da feitiçaria e das ciências ocultas como a alquimia, astrologia, adivinhação e as diversas modalidades de magia. 

Após muito tempo viajando pelo Egito, Grécia e outros países aperfeiçoando seus conhecimentos, aos trinta anos de idade Cipriano chega à Babilônia a fim de conhecer a cultura ocultista dos Caldeus. Foi nesta época que encontrou a bruxa Évora, onde teve a oportunidade de intensificar seus estudos e aprimorar a técnica da premonição. Évora morreu em avançada idade, mas deixou seus manuscritos para Cipriano, dos quais foram de grande proveito. Assim, o feiticeiro dedicou-se arduamente, e logo se tornou conhecido, respeitado e temido por onde passava.


A Conversão Cristã

Vivia em Antioquia a bela e rica donzela Justina. Seu pai Edeso e sua mãe Cledonia, a educaram nas tradições pagãs. Porém, ouvindo as pregações do diácono Prailo, Justina converteu-se ao cristianismo, dedicando sua vida as orações, consagrando e preservando sua virgindade. 

Um jovem rico chamado Aglaide apaixonou-se por Justina. Os pais da donzela (também convertidos à fé Cristã) concederam-na por esposa. Porém, Justina não aceitou casar-se. Aglaide recorreu a Cipriano para que o feiticeiro aplicasse seu poder, de modo que a donzela abandonasse a fé e se entregasse ao matrimônio. 

Cipriano investiu a tentação demoníaca sobre Justina. Fez uso de um pó que despertaria a luxúria, ofereceu sacrifícios e empregou diversas obras malignas. Mas não obteve resultado, pois Justina defendia-se com orações e o Sinal da Cruz. 

A ineficácia dos feitiços fez com que Cipriano se desiludisse profundamente perante sua fé e se voltasse contra o demônio. Influenciado por um amigo cristão de nome Eusébio, o bruxo converteu-se ao cristianismo, chegando a queimar seus manuscritos de feitiçaria e distribuir seus bens entre os pobres.

Os Fantasmas

Em um capítulo de seu livro, Cipriano narra um episódio ocorrido após sua conversão: 

"Numa noite de sexta-feira, caminhava por uma rua deserta quando se deparou com quatorze fantasmas. Essas aparições eram bruxas que imploravam ajuda. Cipriano respondeu-lhes que havia se arrependido de sua vida de feiticeiro, e que havia se tornado temente a Jesus Cristo. Logo depois caiu em sono profundo, e sonhou que a oração do Anjo Custódio o livraria daqueles fantasmas. Ao despertar teve uma breve visão do Anjo. Assim, auxiliado pela oração de São Gregório e do Anjo Custódio, esconjurou e livrou a alma atormentada das bruxas."

A Morte

As notícias da conversão e das obras cristãs de Cipriano e Justina, chegaram até o imperador Diocleciano que se encontrava na Nicomédia. Assim, logo foram perseguidos, presos e torturados. Frente ao imperador, viram-se forçados a negar a fé cristã. Justina foi chicoteada, e Cipriano açoitado com pentes de ferro. Não cederam. 

Irritado com a resistência, Diocleciano ainda lançou Cipriano e Justina numa caldeira fervente de banha e cera. Os mártires não renunciaram, e tampouco transpareciam sofrimento. O feiticeiro Athanasio (que havia sido discípulo de Cipriano) julgou que as torturas não surtiam efeito devido a algum sortilégio lançado por seu ex-mestre. Na tentativa de desafiar Cipriano e elevar a própria moral, Athanasio invocou os demônios e atirou-se na caldeira. Seu corpo foi dizimado pelo calor em poucos segundos. 

Após este fato, o imperador Diocleciano finalmente ordenou a morte de Justina e Cipriano. No dia 26 de Setembro de 304, os mártires e um outro cristão de nome Teotiso, foram decapitados às margens do Rio Galo da Nicomédia. Os corpos ficaram expostos por 6 dias, até que um grupo de cristãos recolheu e os levou para Roma, ficando sob os cuidados de uma senhora chamada Rufina. Já no império de Constantino, os restos mortais foram enviados para a Basílica de São João Latrão.

O Livro

O famoso Livro de São Cipriano foi redigido antes de sua conversão, mas o mistério que envolve a vida do Santo interfere também em seu livro. Uma parte dos manuscritos foi queimada por ele mesmo. A questão é que não se sabe quando, e por quem os registros foram reunidos e traduzidos do hebraico para o latim, e posteriormente levados para diversas partes do mundo. 

No decorrer dos anos, o conteúdo sofreu alterações significativas. Houve uma adaptação de acordo com as necessidades e possibilidades contemporâneas; além da adequação necessária na tradução para os vários idiomas. Esses fatores colocam em dúvida a fidelidade das versões recentes, se comparadas às mais antigas. 

Atualmente, não é possível falar do Livro, mas sim dos Livros de São Cipriano. As edições capa preta e capa de aço; ou aquelas intituladas como o autêntico, o verdadeiro, ou o único, enfatizam um mesmo acervo mágico central, e ainda exaltam o cristianismo e a vitória do bem sobre o mal. Porém, existem grandes diferenças no conteúdo. Enquanto alguns exemplares apresentam histórias e rituais inofensivos, outros apelam para campos negativistas e destrutivos da magia.


Num aspecto geral, encontra-se instruções aos religiosos para tratar de uma moléstia, além de cartomancia, esconjurações e exorcismos. A Oração da Cabra Preta, Oração do Anjo Custódio e outras da crença popular também são inclusas (Magnificat, Cruz de São Bento, Oração para Assistir aos Enfermos na Hora da Morte, etc.). Além dos rituais de como obter um pacto com o demônio, como desmanchar um casamento e da caveira iluminada com velas de sebo.

No Brasil, o Livro de São Cipriano é usado largamente nas religiões afro-brasileiras, e se tornou um "almanaque ocultista" de fácil acesso que se dilui na crendice popular. Há ainda os mitos que o cercam: muitos consideram ser pecado possuí-lo ou simplesmente tocá-lo. De qualquer forma, o tema São Cipriano e tudo que o cerca, é um campo de estudo e pesquisa muito interessante para os ocultistas, religiosos e aventureiros. Por Spectrum

terça-feira, 31 de julho de 2012

Os Trabalhadores do Mar. Victor Hugo

Por Darcy Barcelos. (do Livros pela Casa)


Os Trabalhadores do Mar é o terceiro livro que li do bardo Victor Hugo e cada vez fico mais fascinado por ele. Em minha opinião nenhum escritor que eu tenha lido consegue descrever a alma humana de uma forma tão clara e comovente quanto ele. Não é um livro tão complexo como o maravilhoso 'Os Miseráveis' (meu primeiro contato com sua obra), mas acredito que um pouco superior ao 'Corcunda de Notre Dame', (também sensacional, meu segundo contato). Trata-se de uma história de perseverança e amor em que os sentimentos, magistralmente descritos, fascinam por seu grau de intensidade.

Acompanhe a incrível história de superação de Gilliatt numa jornada incrível contra os elementos da natureza (descritos por metáforas fascinantes) em favor do seu amor pela filha de um construtor náutico.

Enfim, Victor Hugo é um escritor para pessoas sensíveis que gostam de se emocionar.


Victor Hugo

O Velho e o Mar. Ernest Hemingway

"Por Celly Borges

Hemingway escreve de maneira sensacional, em poucas páginas, a história do velho pescador Santiago, que há 84 dias não pescava nada e em sua casa não tinha mais comida, contava com a ajuda de Manolin, um garoto a quem ensinara a arte da pescaria desde muito pequeno. Mas o pai de Manolin o proibira de sair com o velho, pois julgava que este fosse azarado por ficar tato tempo sem pescar um único peixe.

No 85° dia, Santiago saiu mais uma vez para a pesca, quando um espadarte (peixe que podemedir até 4,80 m e pesar cerca de 300 Kg) morde o anzol e o carrega em seu pequeno barco para mar aberto. Neste tempo o velho sofre muito com os ferimentos nas mãos e nas costas, causados pela linha em que o peixe se agarrara. E quando, enfim consegue capturar o grande peixe e tenta voltar para casa, surgem tubarões.

Uma bela história sobre sonhos e como devemos nos agarrar aos nossos sem nunca abandoná-los."

E, também do Fala Livros.

"Sublime.

Ao longo dos anos, elogios não foram poupados à esta obra-prima de Hemingway - e eu serei apenas mais um no coro.

A história do pescador Santiago é comovente, de uma simplicidade e grandiosidade imensuráveis, que só pode ser comparada ao mar que o cerca. A sensação de solidão e desamparo, na luta desigual que é travada entre um velho frágil e um peixe descomunal, é quebrada em alguns momentos, marcada por pequenas vitórias.

Santiago é velho, sim, mas seu corpo e sua mente recusam-se a desistir. Ele não se entrega em momento algum, mesmo quando tudo está perdido. Ele sangra, fica marcado e delira. Ele passa a amar seu oponente, por toda a sua força e beleza. Ele sabe que, após 84 dias sem conseguir pescar peixe algum, a "vitória" no combate que trava pode representar a diferença entre a vida e a morte. Assim, ele segue em frente, simplesmente por não ter outra escolha - como o peixe, na outra ponta da linha.

Como mostrou em As Ilhas da Corrente (que, aliás, tem uma batalha muito parecida com a de Santiago), um homem deve cumprir o seu dever - ou, pelo menos, saber que fez o melhor possível, com todas as suas forças. Até não se importar mais se vence ou perde o jogo, mas apenas desejar que ele termine*."

"Mas tenho de matá-lo", murmurou o velho. "Em toda a sua grandeza e glória. Embora seja injusto. Mas vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer e o que é capaz de aguentar. Eu disse ao garoto que era um velho muito estranho. Agora chegou a hora de prová-lo."
Editora Bertrand Brasil
95 páginas
The old man and the sea
Tradução de Fernando de Castro Ferro


Assista também ao filme "O velho e o mar" (1958), com Spencer Tracey. Um clássico do gênero.



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Les Femmes. Liberatore

Livro com alguns dos melhores trabalhos do artista plástico Gaetano Tanino Liberatore lançado em 2011, pela Editora Drugstore.  Liberatore nasceu em 12 de abril de 1953. É um artista italiano, desenhista e ilustrador, que começou com desenhos de quadrinhos e desenvolveu um estilo próprio, cheio de detalhes, muito polêmico e repleto de erotismo. Em "Les Femmes", com trabalhos de diversas técnicas, desde aquarela, desenho, e outros, Liberatore faz uma grande homenagem às mulheres e, claro, o que nelas há de abundante e que enlouquece os homens. Um livro de arte no mais puro sentido que não precisou de texto para bons entendedores. Divirta-se com as imagens publicáveis a seguir postadas, extraídas do livro. (E, por favor, clique nas imagens para ampliá-las



Liberatore (1953)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Eu, Christiane F... - Kai Hermann e Horst Rieck


Christiane F. (ela na foto)
Eis um livro que marcou uma geração. Biografia da adolescente alemã Christiane F. que se envolveu com uma das drogas mais perigosas, heroína, e se prostituiu para manter o vício. Mesmo após ter se tornado mundialmente famosa com o filme homônimo (1981 - disponível em DVD), inspirado neste livro, Christiane abandonou o vício, mas teve diversas recaídas e atravessou fases conturbadas. Seu nome completo é Christiane Vera Felscherinow e, em 2008, voltou a tomar drogas pesadas e a enfrentar problemas com a guarda do seu filho. Fonte: wikipedia. Abaixo uma ótima resenha do livro, cuja capa atual está ao lado. Veja no final foto do livro da década de 70 e foto atual da Christiane.

Por Celly Borges do Blog "Mundo de Fantas".

"A história real de Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída... (Bertrand Brasil, 352 páginas, R$39,90) é bastante forte, choca o leitor. Me deu arrepios, principalmente por entender que é um problema bastante comum e muitos nem se preocupam mais de tão enraizado na sociedade. O livro conta com detalhes o que a criança passoupara se drogar, indo a lugares escusos, sujos, com pessoas no mesmo nível. 


O intenso drama de uma criança que fez escolhas erradas e aos 13 anos estava praticamente sem vida foi lançado em 1978, em alemão, pelos jornalistas Kai Herrmann e Horst Rieck que entrevistaram a jovem Christiane F. e reuniram seus depoimentos nesse livro rico em tristes detalhes. 

De uma família muito pobre de Berlim, a menina passava as tardes sem o que fazer no condomínio onde morava e conheceu pessoas que não a levaram por caminhos muito bons, começou a se drogar com 12 anos. Com 13 passou a usar drogas mais pesadas e a se prostituir a fim de ter dinheiro para comprá-las. E a questão é sempre a mesma: "eu posso me controlar, não sou viciada", até que a vítima percebe - quando percebe! - não ser verdade, que está mentindo para si e para os que a amam. Enquanto todos em volta morrem um pouco.

Mesmo querendo sair daquela vida, era difícil, como sabemos que ainda hoje é. Viu os amigosmorrerem, a mãe e a irmã sofrerem muito. A mãe até tentou ajudá-la, mas por vezes se mostrava sem forças diante da complexidade e do poder que as drogas exerciam sobre a filha, ainda havia a má influência dos amigos. Essa é outra parte dramática, em que a filha tentava ficar em casa sem encontrar os amigos enquanto a mãe ia trabalhar, mas a necessidade da droga gritava mais alto. 


O namorado, Detlef, ao invés de ajudá-la, afundava ainda mais, ela acreditava que era amor, cuidado. Juntos usavam heroína, se prostituíam, e até foram presos porque roubavam para ter as drogas.


Essa história me faz lembrar da personagem de Distúrbio (leia a sinopse e a entrevista), da portuguesa Valentina Silva Ferreira, Rossana é uma criança violentada pelo pai e sofre calada em seu mundo até que começa a se drogar, apesar de Rossana viver um falso glamour imposto pela mãe, frustrada por não ter conseguido ser modelo, Christiane, que também sofria com o pai porque ele maltratava a família até a mãe resolver sair de casa com as filhas, não via beleza em nada, nem de mentira e, mesmo influenciada, ela foi a responsável por aquela vida.


Christiane e o namorado conseguiram viver, enquanto vários amigos morreram.


O livro se transformou em filme em 1981 e foi dirigido por Ulrich Edel, num clima sombrio, rápido, para mostrar o que e como realmente Christiane F. sobreviveu.


Indicado para pessoas fortes.


*****
Editora: Bertrand Brasil
ISBN: 8528604705
Ano: 2010
Páginas: 352
Título Original: Wir Kinder vom Bahnhof Zoo
Tradutor: Maria Celeste Marcondes
Skoob | Bertrand Brasil " 

Christiane Vera Felscherinow (1962)

sábado, 30 de junho de 2012

A Ninfomania - D.T. Bienville


Publicado em Veneza em 1786, portanto antes da Revolução Francesa, A Ninfomania ou o Furor Uterino, que se embeleza com título de Tratado Áureo, mais do que escrito minuciosamente por um cientista - o Senhor D. T. Bienville, doutor em medicina - parece ser obra de um malicioso libertino. O excesso de descrições fisiológicas e a prudência científica, envolta nos inevitáveis vapeurs, transforma a lição deste Hipócrates do século XVIII em um garboso e agradável tratado de literatura erótica, comparável aos grandes clássicos libertinos de sua época.
Escrito em francês, publicado originalmente em versão italiana, este curioso ‘tratado’ mereceu através destes mais de 200 anos as mais variadas opiniões, teses e estudos. Sua abrangência e ocultas intenções confundiram os seus contemporâneos e o projetaram na história, estabelecendo um documento fundamental de época. Uma época em que um tratado científico/sociológico, uma vez colocado no papel e publicado, não-raro  -  e este é um caso eloqüente -, acabava passando por boa literatura. (contra-capa) 
"DA NINFOMANIA OU DO FUROR UTERINO EM GERAL
Por Ninfomania entende-se um movimento desordenado das fibras nas partes orgânicas da mulher. Essa doença é diferente de todas as outras, na medida em que as outras atacam furiosamente e apontam quase sempre para o mesmo fato, através de sintomas evidentes, toda a sua malignidade; ao passo que esta, ao contrário, esconde-se quase sempre sob o extrínseco enganador de uma aparente calma, tendo, além disso, muitas vezes um caráter perigoso, do qual ainda não foram descobertos nem os avanços nem os princípios. Por vezes, a paciente afetada por ela encontra-se à beira do precipício sem compreender o perigo. É uma serpente que, insensivelmente, sibila no coração. Feliz da paciente se, antes de ser ferida mortalmente, encontra ainda assim vigor suficiente para afastar de si o inimigo que tenta destruí-la!
Essa doença ataca por vezes as mocinhas solteiras, cujo coração, prematuro para o amor, manifestou-se em favor de certos jovens por quem se apaixonaram perdidamente e que, para conquistar, encontraram obstáculos insuperáveis.
Vêem-se ainda algumas mocinhas desencaminhadas, que por um longo espaço de tempo têm levado uma vida voluptuosa, atacadas desavisadamente por esse distúrbio; e isso acontece quando um retiro forçado as mantém distantes das oportunidades que favorecem sua real e fatal inclinação.
Não vamos tampouco eximir as casadas, principalmente aquelas que se encontram unidas com homens de um temperamento frio e frágil que exige sobriedade nos prazeres, ou com outros pouco sensíveis e pouco inclinados a tais prazeres.
Por fim, estão freqüentemente expostas a ela as jovens viúvas, especialmente aquelas a quem a morte privou de um marido vigoroso, com cujo comércio, através de atos vividamente repetidos, habituaram-se ao prazer; cuja grata memória desperta nelas tais desejos que, inconscientemente, causam inquietações, agitações e enfim movimentos involuntários, mas que em pouco tempo reduzem o espírito ao mais aborrecido estado. Todas, em suma, após serem atingidas pelo distúrbio, ocupam-se perpetuamente, com igual força e vivacidade, de objetos capazes de acender em suas paixões a chama infernal do prazer lúbrico... " (p.20/21)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Tamara de Lempicka 1898 - 1980


Ambígua, evidentemente. Livre, sem dúvida. Uma lenda, seguramente. Tamara de Lempicka, la beile Polonaise, a vedeta do período entre- -guerras, reunia em si tudo aquilo que simboliza a época em que viveu. Ou melhor, o que caracteriza a elite da época, gente que frequentava o Ritz de Paris ou o Grand Hôtel de Monte Carlo e que nos tempos actuais integraria o chamado jet-set. 

Ainda recentemente, o New York Times se referia a ela como a «beldade de olhos de aço, a diva da era do automóvel». Na verdade, o seu mais célebre quadro, a que deu o título de Auto-retrato de Tamara no Bugatti Verde (ilust. p. 6), revela algo da relação que Tamara mantinha com as máquinas, fossem elas feitas de aço ou de carne e osso... 

Mulher-automóvel ou automóvel-mulher... onde começaria uma e terminaria o outro? Que tipo de relação manteriam estas duas entidades uma com a outra, e perante os homens? É difícil dizer ao certo. Levantar- se a questão é equacionar a global ambivalência que a todo o momento perpassa e é testemunhada por toda a obra de Tamara de Lempicka. E permanentemente nos confrontamos com a desconcertante sensação de, julgando ter finalmente desvendado o mistério, termos de voltar novamente ao princípio: é que os dados de que dispunhamos eram falsos... 

Na verdade, Tamara nunca possuiu nenhum Bugatti verde, mas um simples Renault amarelo berrante! O que importa, afirmou certa vez a pintora, é que «A minha toilette condizia sempre com o carro, e o carro com o meu vestido».’ 

É fácil imaginar-se Tamara como a incontestada vencedora de um concurso de elegância, saindo do automóvel e apresentar-se perante um júri do qual poderiam fazer parte o Great Gatsby, Hemingway ou Coco Chanel e, numa atitude de imensa superioridade, evoluir diante do veículo, segurando negligentemente o boné de piloto com a mão. 

Perfeita harmonia entre mulher e objecto, em que a primeira era glorificada por um costureiro famoso, e o segundo ostentava o emblema de um construtor consagrado! Seria de esperar uma interactividade entre os dois elementos presentes neste quadro: a mulher a transformar-se em objecto, numa sociedade como a nossa, fundada no conceito de posse... ao mesmo tempo que o automovel surge como uma projecçao da potência viril do homem que o criou. A carga simbólica subjacente é sublinhada através de elementos bem precisos: com a cabeça protegida pelo boné, ao comando de um potente automóvel de 400 cavalos de potência, a mulher — uma graciosa aparição envergando um elegante vestido dos anos vinte — proclama, de certo modo, a sua subordinação a uma força elementarmente expressa na impetuosidade do motor. 

Tal interpretação, particularmente no caso de uma mulher como Tamara, ignora o facto de que o automóvel é igualmente um símbolo da emancipação feminina. A máquina encontra-se sob o poder da condutora, subjugada à sua vontade, ora obedecendo aos seus mais excessivos caprichos, ora resignando-se a que a sua dona a reduza à mais dócil das escravidões. É uma Tamara de Lempicka plenamente segura de que pode dominar este símbolo de força que é o motor do automóvel, utilizando-o, explorando-o como muito bem entender, exclusivamente em seu proveito. 

Podemos assim concluir que o relacionamento entre a nossa heroína e o automóvel, tal como o que estabelece com os homens, e até com as mulheres, é, no mínimo, algo suspeito. Uma atitude que jamais se liberta completamente de um certo horror, entrevisto aliás por detrás de uma fachada aparentemente imaculada. Serão os outros, pergunta-se ela, indiferentes ao seu próprio sexo, à sua própria espécie? Serão eles seus aliados ou rivais? Não se poderá mudar de feminino para masculino, e vice-versa, consoante se seja cúmplice ou motorista, amante ou patroa, de acordo com o nosso grau de feminilidade ou de masculinidade? No fim de contas, todos os seres humanos, mulheres ou homens, são uma subtil mistura destas duas componentes. 

Toda a vida e obra de Tamara de Lempicka se encontram impregnadas por esta ambivalência subtil, reflectindo-a como que através de um espelho distorcido. Não é por simples acaso que no seu Auto-retrato ela surge ao volante de um automóvel. O carro funciona como uma preciosa peça de maquinaria, como um simile do amor, susceptível em ambos os casos de trazer uma salutar alternância à alma de um mortal ser humano. 

Na verdade, Tamara sempre tirou o maior partido possível desta ambivalência que se situa a meio caminho entre uma fórmula matemática e um sortilégio. Mas, atenção: tal como todas as heroínas famosas — da Hadaly de «A Futura Eva», a novela de Villiers de L’ Isle-Adam, à Copélia de E.T.A. Hoffmann, da «Francine» de Descartes (essa formidável automação) às «máquinas dos celibatários», caras à sensibilidade surrealista —, Tamara é tão capaz de estrangular o seu adversário como de remeter o herói para um atormentado desfecho, semelhante ao reservado a Prometeus. Ninguém toma impunemente possessão dos deuses do Fogo e do Conhecimento apenas para fruir voluptuosamente a vida, para desassossegar aqueles que se ama e se pinta.

Amante dócil ou meretriz coquette, fêmea obediente ou animal feroz e encarniçado, tal como o seu duplo, o automóvel, Tamara tanto pode conduzir os seus amantes, sejam eles homens ou mulheres, aos mais gloriosos êxtases, evasões, libertações e esquecimentos, como de os fazer embater contra uma árvore e infligir-lhes os mais medonhos padecimentos.

Com efeito, era habitual outras mulheres, igualmente fascinadas pela relação simbiótica que se estabelece entre condutora e automóvel, confessarem-lhe: «Você fica tão maravilhosamente bem ao volante, que só por isso gostaria imenso de a conhecer!..

Foi exactamente isso que se passou quando conheceu pela primeira vez a editora da revista alemã de moda Die Dame, que lhe solicitara o Auto-retrato para figurar na capa da sua publicação. Dali a pouco tempo a pintora tomava-se famosa, passando a ser vista como um paradigma da mulher moderna. À medida que o tempo ia passando, Tamara tomava-se o retrato vivo da sua época. A partir de então, a artista passa a ser identificada com o mundo das máquinas. O Hollywood Theatre chega mesmo a aproveitar o Auto-retrato para cartaz da peça «Tamara: A living Movie». Por seu lado, o Das Magazin compara Lempicka a uma bela Brunilde: ela e o seu automóvel incarnam a imagem de uma mulher simultaneamente voluptuosa e superior. Em 1973, o Auto-Journal saúda Tamara no Bugatti Verde como sendo o verdadeiro retrato da mulher emancipada, que sabe perfeitamente como conquistar tudo o que pretende. "De luvas e boné, ela surge-nos como uma beldade fria, desconcertante e inacessível. Perante esta imagem é impossivel negar-se que esta mulher é inteiramente livre!"


 Acesse também: Tamara de Lempicka - The complet works.