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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Quem é você, Alasca? John Green

Sim (poderia começar com um não, mas por que não começar assim: com um “Sim”, simples direto e positivamente mais otimista?). Às vezes, como agora, corro o risco de esquecer o que me motivou a começar a escrever, é uma ideia sobrepondo-se a outra, mas vou escrever para não a esquecer: “tenho n razões para acreditar no difícil, no remoto, no impossível”. Sim (de novo), sou um otimista inveterado e incorrigível (Thank God!). Acabo de terminar a leitura de “Looking for Alaska”, de John Green (em português, “Quem é você, Alasca?”, tradução que, como de hábito, já conta um pouco da história, herança portuguesa lamentável. Fazer o quê?). Gosto do mistério que envolve a escolha dos livros que leio. É quase como um pedido: “ei, você irá gostar da minha história!" Como se o livro me chamasse à leitura. “Coisa de doido!”, como alguém deixara escapar várias vezes. 

A trama da história de “Looking for Alaska” extrapola e surpreende. O que me atraiu no início era o tradicional romance: “garota bonita e inteligente X garoto estranho e interessante”. Motivado pela leitura de algumas passagens que li no Tumblr e no Facebook. Qualquer semelhança com minha visão de vida não é mera coincidência. Gosto das infinitas possibilidades que o cotidiano nos mostra de forma tão “labiríntica”. Ainda bem que a vida “é bem como ela é”, mesmo! (risos) Não fosse assim, acho que seria um eterno frustrado. Cada pessoa é um universo à parte. Muitas vezes ficamos horrorizados com o que ouvimos, ou com o que as pessoas (diferentes ou não muito diferentes de nós) fazem. Por mais fora do padrão que nossos comportamentos sejam, sempre achamos que os outros é que não são “normais”. 

Voltando ao livro. Além de romance adolescente para adolescente, o livro traz uma temática interessante e incomum: a predileção por “últimas palavras” de pessoas ilustres. Talvez os americanos não sejam nativos do planeta Terra. Mas, surpreendentemente, há inúmeros livros sobre isso. Por que alguém iria se interessar por “últimas palavras”? Por que alguém iria querer se “eternizar” dizendo algo para a posteridade, quando, nos momentos que antecedem a morte, o moribundo quer, sobretudo, sobreviver e não fazer “imagem”. Quem, em sã consciência, acha que os moribundos querem “ficar bem na foto”? Outro dia comentei que deve ser muito legal ter um pai músico que fizesse uma música maravilhosa em homenagem ao filho. Falava de “Jealous Guy”, de John Lennon. E, meu filho, com uma visão de outro ângulo e muito mais sensata que a minha, corrigindo-me: “prefiro um pai vivo a um pai morto”. Bem, e as tais "últimas palavras"? “Como faço para sair deste labirinto?” e “Saio em busca de um grande talvez”. 

Parece uma grande bobagem preocupar-se com as últimas palavras de um moribundo, porque, acaso estivéssemos no lugar dele, iríamos querer unicamente não estar naquela situação. Ao invés de querer gastar o último sopro com palavras, que poderão até sair incompreensíveis ou, obviamente, apressar a morte, mais sensato seria gastá-lo tentando respirar de novo, mais e melhor. As coisas muitas vezes nos fogem do controle e do seu rumo inicial, fogem do plano, quando o imprevisto afeta substancialmente o plano A, e é por isso que devemos analisar tanto as variáveis possíveis e prováveis, possibilitando planos B ou C. Ao tentar entrar no assunto das palavras e do silêncio, “prefiro as palavras mal ditas ao silêncio”. 

Ainda não sei o porquê, mas, ás vezes, chego a ter a impressão de morte, como se tivéssemos morrido, ou assassinássemos um ao outro ao dizermos goodbye, farewell, it’s over. O cérebro pode até interpretar racionalmente, mas, há momentos em que aquele algo mais se sobrepõe e, talvez fruto do coração saudoso e inconformado, dá sinais de sobrevida. Não, este “tipo” de morte não existe. Racionalizar o sentimento é uma das maiores insensatez que uma pessoa pode tentar fazer, mas o fazem com frequência. “Ela me ensinou tudo o que eu sabia sobre lagostins, beijos, vinho tinto e poesia. Ela me mudou” (p. 176) e a forte irresignação “Você não pode me mudar e depois ir embora.” E, muitas vezes, ao nos lembrar de algo, damo-nos conta da fragilidade do tempo, naquele local onde ele não tem o menor sentido, quando a presença fantasmagórica nos vem, como necessidade premente, e somos obrigados a parar e refletir, com os olhos vidrados e a mente a 17 mil quilômetros de distância: “Eu queria tanto me deitar ao lado dela, envolvê-la em meus braços e adormecer. Não queria transar, como nos filmes. Nem mesmo fazer amor. Só queria dormir com ela, no sentido mais inocente da palavra.” 

Por motivos que não interessam agora, há muitos anos não lia um autor estrangeiro. John Green (o mesmo de “A Culpa é das Estrelas”) é muito bom e excepcional em retórica. O livro poderia ser resumido em um terço do seu tamanho, mas se correria o risco de se perderem algumas das suas melhores passagens, que aparecem justamente nas pausas retóricas. Vale a pena se deixar levar por uma boa narrativa e personagens avessos (ou nem tanto) a nós. Adoro esta experiência extra-corpórea que a literatura nos oferece. E que bom que, ao concluirmos a leitura, já não somos mais os mesmos, apesar de estarmos na mesma casa, e talvez sentados na mesma poltrona do início da leitura. Agora que já li o livro, acho que, nas mãos de um bom diretor, até que daria um filme interessante, talvez até “Cult”, com boa trilha sonora e efeitos especiais. Não gosto de ler o livro depois do filme, pois há uma tendência a nos influenciarmos pela visão do diretor, o que não é legal. Eu particularmente não gosto. "Quem é você, Alaska?" é o meu segundo livro lido do ano. Estou devendo, mas o que importa mesmo é não parar. A seguir algumas passagens retiradas do site da escritora e blogueira Isabel Freitas, espero que ela não se importe. 

“Ela tinha namorado. Eu era um palerma. Ela era apaixonante. Eu era irremediavelmente sem graça. Ela era infinitamente fascinante. Então eu voltei para o meu quarto e desabei no beliche de baixo, pensando que, se as pessoas fossem chuva, eu seria garoa e ela, um furacão.”;

"Chega uma hora em que é preciso arrancar o Band-Aid. Dói, mas pelo menos acaba de uma vez e ficamos aliviados.";

 "Tantos de nós teríamos de conviver com coisas feitas e deixadas por fazer naquele dia. Coisas que terminaram mal, coisas que pareceram normais na hora, porque não tínhamos como prever o futuro. Se ao menos conseguíssemos enxergar a infinita cadeia de consequências que resultariam das nossas pequenas decisões. Mas só percebemos tarde demais, quando perceber é inútil.";

“Quando os adultos dizem: “Os adolescentes se acham invencíveis”, com aquele sorriso malicioso e idiota estampado na cara, eles não sabem quanto estão certos. Não devemos perder a esperança, pois jamais seremos irremediavelmente feridos. Pensamos que somos invencíveis porque realmente somos. Não nascemos, nem morremos. Como toda energia, nós simplesmente mudamos de forma, de tamanho e de manifestação. Os adultos se esquecem disso quando envelhecem. Ficam com medo de perder e de fracassar. Mas essa parte que é maior do que a soma das partes não tem começo e não tem fim, e, portanto, não pode falhar” ;

“Mas que diabos significa “instantâneo”? Nada é instantâneo. Arroz instantâneo leva cinco minutos, pudim instantâneo uma hora. Duvido que um instante de dor intensa pareça instantâneo.” ;

“Isso é o medo: Perdi uma coisa importante, não consigo achá-la, preciso dela. É o que a pessoa sentiria se perdesse os óculos, fosse até uma óptica e descobrisse que todos os óculos do mundo tinham se acabado e que, agora, ela teria de se virar sem eles.”;

“Eu queria ser seu último amor. Mas sabia que não era. Sabia e a odiava por isso. Eu a odiava por não se importar comigo. Eu a odiava por ter me deixado naquela noite. E odiava a mim mesmo por tê-la deixado ir embora, porque, se eu tivesse sido suficiente, ela não teria querido ir embora. Simplesmente teria se deitado comigo, conversado e chorado. E eu a teria ouvido e teria beijado as lágrimas que caíam dos seus olhos.”;

“Não sabia se podia confiar nela e já estava cansado de sua imprevisibilidade – fria num dia, meiga no outro; irresistivelmente sedutora num momento e insuportavelmente chata no outro.”;

“Vocês fumam para saborear. Eu fumo para morrer.”;

“Eu queria ser uma dessas pessoas que têm uma sequência a manter, que chamuscavam o chão com sua intensidade. Mas agora pelo menos, eu conhecia pessoas desse tipo, e elas precisavam de mim como um cometa precisa de uma cauda.”;

“O que significa ser uma pessoa? Como passamos a existir e o que será de nós quando deixarmos de existir? Em suma: quais são as regras deste jogo e qual é a melhor maneira de jogá-lo?”;

“Você não pode me mudar e depois ir embora.”;

“Não posso ser uma dessas pessoas que ficam sentadas falando que pretendem fazer isso e aquilo. Eu vou fazer e pronto. Imaginar o futuro é uma espécie de nostalgia.”;

“Eu queria tanto me deitar ao lado dela, envolvê-la em meus braços e adormecer. Não queria transar, como nos filmes. Nem mesmo fazer amor. Só queria dormir com ela, no sentido mais inocente da palavra.”.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

O livro espantado. Priscila Lopes

Na vida, escolhemos caminhos que nos surgem pela frente e costumamos seguir adiante, quase que instintivamente, sem muita reflexão, pois, como dizem, o tempo está sempre nos comendo pela perna. Encontramos muita gente nos anos de trajetória. E, em meus 50 anos, recém completados, então, um montão de gente. Cada qual com seu grau de importância. E é claro que algumas pessoas se sobressaem das demais e entram, quase todas sem querer, para um rol de destaque na nossa humilde história. Priscila é uma delas.

Há alguns anos, encontrei Priscila Lopes por acaso, num site de novos escritores. Foram caminhos que se cruzaram, eram pretensões similares, mas comportamentos distintos. Imprescindível detalhe. Eu desisti de escrever, pois minha avassaladora autocrítica sagrou-se vencedora. Não lamentem. E ainda não sei se para o bem (dos leitores) ou para o mal (meu, particular). Priscila, ao contrário, perseverante por natureza (acredito, pois deu provas disso), seguiu em frente, cabeça erguida, decidida. O resultado está diante de meus olhos. Um livro surpreendente. E já é o seu segundo livro.

Costumo lembrar de uma frase que vi num diálogo de um filme, visto há vários anos, cujo nome não me vem: “somos sempre maiores do que pensamos ser e nossas ações geram mais consequências do que imaginamos.” É isso. Perfeito. Priscila se enquadra perfeitamente na máxima. Li seu livro com deleite e com certo orgulho de ter acompanhado sua trajetória, de longe, mas sempre com interesse no seu sucesso. Reconheci seu talento. Há alguns anos, chegamos a trocar emails, cujo teor não podia ser outra coisa: livros e literatura. Tive, em determinado momento, o prazer de receber uma confissão de Priscila, que talvez ela nem mais se lembre, entretanto vale recordar. Confidenciou-me à época: “Vou te contar um segredinho”, disse, segura em compartilhar: “Eu a-do-ro escritores gaúchos!” Aquilo soou como música aos meus ouvidos, ainda mais vindo de uma catarinense. Primeiro, porque eu também adoro ler escritores gaúchos; e, segundo, porque eles são meus conterrâneos. Anos depois, soube que um de seus contos fora publicado na Revista Cult e também fiquei muito feliz por mais um sucesso.

Em “O livro espantado” (122 páginas, editora Patuá, 2014), Priscila presenteia o leitor com 24 contos curtos, em narrativas curiosas, fluidas e digestivas, cujos temas vagueiam entre a infância e a pré-adolescência. Narrados, predominantemente, em primeira pessoa, a atmosfera dos contos nos passa a impressão de um livro de memórias, com o tradicional clima intimista e confessional. Embora já tenha lido que as narrativas em primeira pessoa sejam pouco confiáveis, e que deixam o leitor inseguro, posto que a história nos é transmitida sob o ponto de vista de apenas um dos personagens, ao mesmo tempo nos passam a ideia de veracidade, como se tudo, realmente, tenha acontecido. E Priscila conseguiu, pois, na maioria das narrativas de personagens femininos, tem-se a impressão de que a história se passou com a própria autora.

Embora na contracapa se mencione um “mergulho no universo da infância”, percebi, na quase totalidade dos contos, uma predominante maturidade na visão infantil das coisas pelos protagonistas, como memória revivida. Assim como assisti a uma entrevista de um garoto de 11 anos, capaz de uma aula de maturidade, muito provavelmente por ser uma criança que lê; acredito que revermos nossa infância em memórias longínquas depois de adulto, não só nos enriquece, como nos deixa mais conscientes do contínuo e necessário processo de autoconhecimento. Além disso, a narrativa de personagem feminino também nos possibilita, como leitores masculinos, a inusitada e interessante experiência extracorpórea.

Alguns contos se sobressaíram, no meu gosto pessoal, e os destaco. Em “Nunca amar” (p.7), o conto que abre o livro, a personagem com seus planos para o primeiro amor. “... à noite ficava até tarde na internet escolhendo as músicas; músicas para tocar quando se conhecerem, músicas para quando já tiverem dito ‘te amo’, músicas para o casamento... casamento!”, e foi impossível não fazer minha associação a uma canção popular dos anos 70, cujos versos pedem que o amor não chegue na hora marcada, e, ao final, imperativamente, “quando te encontrar, me reconheça”. 

Me encantou a passagem, em “A maçã do amor” (p.31): “... Calou-se. Para sempre. E eu também emudeci pálido como açúcar; apavorado como um pintinho que, na verdade, nem sabe do que tem medo, apenas vive de se apavorar, até virar galinha e perceber que não havia mistério então; era só botar ovos.”.

No conto “O livro espantado” (p.43), conto que dá título ao livro, uma relação muito pessoal com o livro e a paixão pela leitura: “... Foi em pé, abraçada ao pacote, deslizando os dedos sobre ele, sentindo seu peso; não podia ser o mesmo livro. Talvez fosse semelhante, com os vinte contos mais populares do século, ou de poesias, ou de micronarrativas. Ou quem sabe fosse um livro que o destino encomendara para ela...” E foi como mágica ler o conto e rever a minha própria relação com os livros. Adquiri, na infância ainda, uma relação quase esquizofrênica com o livro. O livro físico, seu cheiro, sua textura, a magia das imagens das capas, orelhas de degustação, e aquelas quase infinitas letrinhas enfileiradas a me hipnotizarem, sempre numa relação tempestuosa com a minha impossibilidade financeira de adquiri-los. Em décadas de psicoterapia, acho que eu só piorei. Embora eu, ultimamente, os tenha evitado, volta e meia tenho recaídas e, confesso, leio, leio muito. Houve um tempo em que gostaria de ter o poder especial de absorver o conteúdo de um livro com um simples toque de dedo, como alguns personagens de filmes de ficção científica; ou, melhor, poder esticar o tempo e ficar, dias e dias, lendo sem parar.

Em “Antes de mim” (p.97), reflexões como verdadeira poesia em prosa: “... ela às vezes falta em dias de chuva. Sua palidez pertence às quintas de chuva; de certo fica em casa cultuando-a, de certo sua mãe ou seu pai entendam que chover é suficiente. Pra que mais, me pergunto enquanto cruzo caras e bocas sorridentes, pra que mais?”. E, ainda no mesmo conto, algo fantástico e quase inimaginável: “... ela me ensinou Mario Quintana. Eu gostava de falar da coisa sem dizer o nome da coisa, só assim, coisa. E depois do Quintana eu me senti menos singular. Pelo menos até saber que ele havia morrido. Depois pensei que talvez eu fosse sua reencarnação, porque eu também escrevia ideias. E coisas.” (p.99).

E, não fossem todas as demais passagens, só esta última já justificaria a leitura do livro, em “A menina roubada” (p.121): “Então eu era um grito. Uma imaginação. Compraram-me como um intangível. Eu estava no aplauso, estalando. Eu estava no silêncio de taças inquebráveis. Como um porcelanato eu me atirei contra meus princípios – num precipício estou caindo há vinte anos.” Uma prova do talento e da escrita incomum de Priscila Lopes. 

Outro dia li, numa das suas postagens, em sua página do Facebook, na qual Priscila contestava uma declaração equivocada de um leitor que dizia não haver escritores de talento na Literatura Brasileira contemporânea após Guimarães Rosa. Bons escritores existem e publicam. Falta, talvez, mais divulgação de seus trabalhos e, claro, interesse dos leitores em procurar algo novo e de qualidade. Best Sellers nunca foram garantia de qualidade. Mas me sinto na liberdade de dizer que Priscila Lopes está ao lado de muitos outros novos talentos da literatura brasileira contemporânea. Entre os quais, gosto de lembrar dos que já li: Paulo Scott, Luisa Geisler, Marcelino Freire, Ronaldo Bressane, Daniel Pelizzari, Clarissa Corrêa, e outros, muitos outros.

Priscila Lopes

Para saber mais sobre Priscila, acesse:




sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Sebastião Salgado (Photo Poche - série)


À luz da história
Foi em janeiro de 1985, na editoria de fotografia do jornal Libération, que Sebastião Salgado, de volta de sua primeira viagem ao Sahel, veio mostrar os contatos de suas fotos sobre a seca e a fome que, mais uma vez, dizimavam aquela região da África.
Imagens em preto e branco de crianças, mulheres e velhos esquálidos a quem os voluntários dos Médicos sem Fronteiras tentavam levar socorro. Salgado partira com os “french doctors”, para testemunhar. E, numa época em que as revistas não compreendiam por que ele não havia fotografado em cores, era para um jornal que ele se voltava. Tudo isso, simplesmente, para lembrar que a finalidade primordial do fotógrafo Salgado é informar e, por conseguinte, publicar suas imagens na imprensa, ainda que, mais tarde, o livro e a exposição façam suas imagens existirem de outra forma, conferindo-lhes leituras e amplitudes diversas.
Crianças morrendo de malnutrição foram muitas vezes um dos temas do fotojornalismo dividido de certa forma entre o espetacular e o testemunhal, entre a consciência limpa e o documento bruto. E, numa época em que Serge Daney via “o humanismo desaparecer em prol do humanitário”, era preciso desconfiar do impacto e do sentido das imagens que chegavam a nós depois de tantas páginas duplas coloridas, com olhares esgazeados, moscas e barrigas inchadas, litania ritual no papel couché, banalização do horror e confissão de impotência. Daquela vez, entretanto, era diferente.
A evidência estava ali: a forma das imagens de Sebastião Salgado derivava de outra abordagem, que impunha respeito e dignidade. Para além da simples força plástica, interrogavam nossa maneira afoita de ver, nossa vontade de engolir os fatos. Sua precisão, e, por que não, beleza, perturbava-nos, pois se opunha radicalmente aos clichês em voga, forçando-nos a enxergar. Salutares, portanto. Era evidente que cumpria publicar as imagens de Salgado, a fim de satisfazer uma necessidade real da informação e da consciência. (p.5, por Christian Caujolle)
 
Sebastião Salgado foi o primeiro fotógrafo brasileiro a integrar a coleção Photo Poche. Nascido em 1944 em Aimorés, Minas Gerais, estudou economia, mas logo se interessou pela fotografia e seu potencial expressivo e político. Trabalhadores e crianças em situação de risco, êxodos e rituais fúnebres são imagens que se tornaram símbolos de seu modo único de retratar e denunciar os limites da condição humana. Com uma estética precisa e uma solidariedade incondicional aos sujeitos que registra, sua produção fez dele um fotógrafo premiado em todo o mundo.

Texto de Christian Caujolle
64 fotografias em preto e branco
Biografia e bibliografia 






sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Necronomicon - O Livro dos Mortos

Não existe lenda mais bizarra que a lenda do livro escrito a sangue que continha em suas páginas segredos diversos para realização dos mais sombrios desejos como imortalidade, geração de filhos, trazer a vida pessoas que já se foram, dentre outros. Mas tudo isso a que preço?

Vale lembrar que tudo que não tem ou faz parte do ciclo natural de vida é considerado sobrenatural e pode ter causas muito assustadoras para quem se valer desses privilégios.
 
O Necronomicon (literalmente: "Livro de Nomes Mortos") foi escrito em Damasco, por volta de 730 d.C., sendo sua autoria atribuída a Abdul Alhazred. Ao contrário do que se pensa vulgarmente, não se trata de um grimoire (ou grimório), livro mágico de encantos, mas de um livro de histórias. Escrito em sete volumes no original, chegou à cerca de 900 páginas na edição latina, e seu conteúdo dizia respeito à coisas antigas, supostas civilizações anteriores à raça humana, numa narrativa obscura e quase ilegível.

Abdul Alhazred nasceu em Sanaa, no Iêmen, tendo feito várias viagens em busca de conhecimento, dominando vários idiomas, vagou da Alexandria ao Pundjab, na Índia, e passou muitos anos no deserto despovoado ao sul da Arábia. Embora conhecido como árabe louco, nada há que comprove sua insanidade, muito embora sua prosa não fosse de modo algum coerente. Alhazred era um excelente tradutor, dedicando-se a explorar os segredos do passado, mas também era um poeta, o que lhe permitia certas extravagâncias na hora de escrever, além do caráter dispersivo. Talvez isso explique a alinearidade do Necronomicon.

Alhazred era familiarizado com os trabalhos do filósofo grego Proclos(410-485 d.C.), sendo considerado, como ele, um neo-platônico. Seu conhecimento, como o de seu mestre, inclui matemática, filosofia, astronomia, além de ciências metafísicas baseadas na cultura pré-cristã de egípcios e caldeus. Durante seus estudos, costumava acender um incenso feito da mistura de diversas ervas, entre elas o ópio e o haxixe. As emanações desse incenso, segundo diziam, ajudavam a "clarear" o passado.

Ao que se sabe, não existe mais nem um manuscrito em árabe do Necronomicon, o xá da antiga Pérsia(atual Irã) levou à cabo uma busca na Índia, no Egito e na biblioteca da cidade santa de Mecca, mas nada encontrou. No entanto, uma tradução latina foi feita em 1487 por um padre dominicano chamado Olaus Wormius, alemão de nascença, que era secretário do inquisidor-mor da Espanha, Miguel Tomás de Torquemada, e é provável que tenha obtido o manuscrito durante a perseguição aos mouros. O Necronomicon deve ter exercido grande fascínio sobre Wormius, para levá-1o a arriscar -se em traduzí-lo numa época e lugar tão perigosos. Ele enviou uma cópia do livro a João Tritêmius, abade de Spanhein, acompanhada de uma carta onde se lia uma versão blasfema de certas passagens do Livro de Gênese. Sua ousadia custou-lhe caro. Wormius foi acusado de heresia e queimado numa fogueira, juntamente com todas as cópias de sua tradução. Mas, segundo especulações, ao menos uma cópia teria sido conservada, estando guardada na biblioteca do Vaticano.

O Necronomicon de Alhazred trata de especulações antediluvianas, sendo sua fonte provável o Gênese bíblico e o Livro de Enoch, além de mitologia antiga. Segundo Alhazred, muitas espécies além do gênero humano tinham habitado a Terra, vindas de outras esferas e do além. Alhazred compartilhou da visão de neoplatoniatas que acreditavam serem as estrelas semelhantes ao nosso Sol, cada qual com seus próprios planetas e formas de vida, mas elaborou essa visão introduzindo elementos metafísicos e uma hierarquia cósmica de evolução espiritual. Aos seres das estrelas, ele denominou "antigos". Eram sobre-humanos e podiam ser invocados, desencadeando poderes terríveis sobre a Terra.

Alhazred não inventou a história do Necronomicon. Ele elaborou antigas tradições, inclusive o Apocalipse de São João, apenas invertendo o final (a Besta triunfa, e seu número é 666). A idéia de que os "antigos" acasalaram com os humanos, buscando passar seus conhecimentos para o nosso plano de existência e gerando uma raça de aberrações, casa com a tradição judaica dos nephilins (os gigantes de Gênese 6.2-6.5). A palavra árabe para "antigo" deriva do verbo hebreu para "cair"(os anjos caídos). Mas o Gênese é só um fragmento de uma tradição maior, que se completa, em parte, no Livro de Enoch. De acordo com esta fonte, um grupo de anjos guardiões enviados para observar a Terra viu as filhas dos homens e as desejou. Duzentos desses guardiões formaram um pacto, saltando dos ares e tomando as mulheres humanas como suas esposas, gerando uma raça de gigantes que logo se pôs a pecar contra a natureza, caçando aves, répteis e peixes e todas as bestas da Terra, comendo a carne e bebendo o sangue uns dos outros. Os anjos caídos lhes ensinaram como fazer jóias, armas de guerra, cosméticos, encantos, astrologia e outros segredos. O dilúvio seria a consequência das relações entre os anjos e os humanos.

É inegável que o sistema enochiano de Dee e Kelley estava diretamente inspirado em partes do Necronomicon, onde há técnicas de Alhazred para a invocação dos "antigos". Embora o Necronomicon fosse basicamente um livro de histórias, haviam algums detalhes práticos e fórmulas que funcionavam quase como um guia passo a passo para o iniciado entrar em contato com os seres sobre-humanos. Dee e Kelley tiveram que preencher muitas lacunas, sendo a linguagem enochiana um híbrido que reúne, basicamente, um alfabeto de 21 letras, dezenove "chaves" (invocações) em linguagem enochiana, mais de l00 quadros mágicos compostos de até 240 caracteres além de grande quantidade de conhecimento oculto. É improvável que esse material lhes tivesse sido realmente passado pelo arcanjo Uriel

ONDE O NECRONOMICON PODE SER ENCONTRADO:

Em nenhum lugar, com certeza, seria a resposta mais simples Entre 1933-1938, desapareceram algumas cópias conhecidas do Necronomicon. Não é segredo que Adolf Hitler e pessoas do alto escalão de seu governo tinham interesse em ocultismo, e provavelmente apoderaram-se dessas cópias.

Há muitas fraudes modernas, mas são facilmente desmascaradas por uma total falta de imaginação e inteligência, qualidades que Alhazred possuía em abundância. Mas há boatos de um esconderijo dos tempos da 2º Guerra, que estaria localizado em Osterhorn, uma área montanhosa próxima à Salzburgo, onde haveria uma cópia do manuscrito original, escrita pelos nazistas e feita com a pele e o sangue de prisioneiros de campos de concentração.

Qual o motivo para o fascínio em torno do Necronomicon? Afinal, é apenas um livro, talvez esperemos muito dele e ele não possa mais do que despejar um grão de mistério no abismo de nossos anseios pelo desconhecido. Mas é um mistério ao qual as pessoas aspiram, o mistério da criação, o mistério do bem e do mal, o mistério da vida e da morte, o mistério das coisas que se foram. Nós sabemos que o Universo é imenso, além de qualquer limite da nossa imaginação, mas o que há lá fora? E o que há dentro de cada um de nós? Seria o Universo um espelho para nós mesmos? Seriam os "antigos" apenas uma parte mais profunda de nosso subconsciente, o ego definitivo, o mais autêntico "eu sou", que no entanto participa da natureza divina?

Existe também o filme Necronomicon onde se retrata com mais modernismo e impressionismo o título.

Abaixo mostro algumas páginas do Necronomicon original extraídas de diversos sites de pesquisa.
Cena do Filme - Uma Noite Alucinante 3


Símbolo 



Dee e Kelley









Fonte: Sobrenatural.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Os 120 dias de Sodoma. Marquês de Sade

"Bom, agora que vocês já foram devidamente introduzidos (!) ao pensamentos sadista, podemos discutir aquela que é considerada sua obra máxima… o incompleto, e, por muito tempo dado como perdido, “120 Dias de Sodoma”.

“120 Dias de Sodoma” usa o mesmo recurso de história-dentro-da-história de livros clássicos, como “Mil e Uma Noites” e o “Decamerão”. Não é tanto uma paródia quanto um estilo comum à época. No castelo de Silling, um juiz, um nobre, um político e um padre se reúnem, trancados por 120 dias com um grupo de prostitutas vis e envelhecidas, e jovens virgens e belos, de ambos os sexos, que, durante o decorrer da narrativa serão submetidos aos mais diversos abusos. Em cada dia uma prostituta narra uma história diferente, sendo que os epísódios são cuidadosamente escalonados em um crescendo de perversão, maldade, violência e terror. As primeiras histórias, as paixões simples, nem sequer envolvem penetração. Já as últimas, as paixões assassinas, invariavelmente envolvem a tortura, mutilação e morte como o elemento erótico do texto.

Nada disso é gratuito. Sem dúvida Sade tinha lá a intenção de chocar… mas o sadismo é muito mais que um fetiche para a classe média aborrecida, incapaz de perceber que o problema não é tanto repetição incessante da posição papai e mamãe e mais o fato de que papai e mamãe gostariam mesmo é de estar trepando com titio e titia. Talvez ao mesmo tempo… but I digress. Sadismo é uma visão de mundo complexa que envolve uma dura crítica às autoridades estabelecidas, retratadas como criminosos mendazes e cruéis, pouco interessados em mais do que oprimir as classes baixas, dispondo deles conforme suas vontades mais odiosas e rompendo em privado com os ideais de justiça, fraternidade e igualdade que pregam em público. Mas é aí que está a ambiguidade do pensamento de Sade, a contradição interna que contribui grandemente para a não-compreensão da obra do autor: ao mesmo tempo em que Sade denuncia a hipocrisia da autoridade e dos valores morais, que em sua visão são apenas formas de controle impostas sobre o povo e que não representam nenhuma realidade empírica ou objetiva, Sade dá a entender que a libertinagem, em última instância, leva à destruição. Assim como em “Filosofia na Alcova”, em que a libertação da casta Eugénie do mundo dos valores burgueses a transforma em um monstro, também em “120 Dias de Sodoma” a única personagem capaz de superar o ciclo de abuso e submissão imposto pelos protagonistas é aquela que se torna ela também um algoz, e assassina.

A visão normalmente propagada do sadismo enquanto ato erótico é, afinal de contas, extremamente sanitizado e anódino. A disposição emocional de Sade provavelmente variaria entre diversos tons de descrença e fúria, ao ver que, em nosso século, seu nome é associado à fantasias de couro e chicotinhos de brinquedo vendidos no sex shop da esquina para donas de casa aborrecidas (ver falta de titio e titia, acima). O sadismo sexual, na obra do bom Marquês, era um ato que deveria, invariavelmente, culminar com a morte da parte submissa, de preferência após tortura indizível e insuportável. A idéia de sadismo consensual seria, em si, absurda e desagradável. O prazer residiria justamente na violação, no profundo abuso da integridade física, moral e emocional de uma das partes, que seria muito mais vítima do que parceiro sexual. Não que Sade fosse um mórbido. Na verdade, o homem foi preso por Robespierre justamente por se opôr firmemente à pena de morte. Mas, na visão de sexualidade de Sade, o prazer e a morte, o êxtase e a agonia, não eram forças opostas, mas sim elementos extremamente interligados e interdependentes. Note que a última história de “120 Dias de Sodoma”, por definição o ato sexual supremo na visão de Sade, não envolve nenhuma forma de intercurso como nós conhecemos. É sim a história de um homem que mutila e assassina 15 jovens das mais diferentes maneiras, tirando seu prazer de vê-las morrer. Para Sade, em última instância, o gozo era causar a destruição.

Daí a ambiguidade, já mencionada. Sade defendia um mundo onde, ao invés de se manterem submetidos a forças totalitárias e mentirosas, as pessoas seguissem seus próprios valores subjetivos, buscando a obtenção do prazer individual. Mas, ao mesmo tempo, Sade demonstrava que, a busca incessante pelo prazer individual só poderia levar a um estado generalizado de violência, conforme a dissolução total dos valores morais levasse os homens à busca ao êxtase máximo: a obliteração sem culpa do outro. Talvez Sade acreditasse na existência de um meio-termo entre um ponto e outro. Talvez não, e nem sequer se importasse.

Mas depois de toda essa exegese do pensamento sadiano, resta ainda a pergunta crucial: O livro é bom? Não. Não é não. Para um livro cujos temas principais são sexo e morte (aliás, que livro não é sobre isso?), “120 Dias de Sodoma” é surpreendentemente chato. Sade podia ser um crítico ferrenho da mentalidade Iluminista, mas também não deixava de ser um homem de seu tempo. Como uma espécie de Diderot do mal, Sade pretendia fazer uma compilação exaustiva de cada tipo de ato sexual fora da norma, devidamente categorizado e registrando cada variante possível. O resultado é uma história sobre um cara que come cocô, outro que come cocô e vomita, daí uma história sobre um que gosta que comam cocô e vomite nele, e outro ainda que faz tudo isso e daí come o cocô vomitado depois… e o resultado é tão aborrecido quanto ler uma enciclopédia, que é o que “120 Dias…” se propunha ser. Para piorar, não estamos mais no século XVI. Hoje em dia filmes como O Albergue ou Jogos Mortais tornaram a tortura com requintes de crueldade não só um lugar-comum, mas praticamente um novo gênero de ficção. As atrocidades de “120 Dias de Sodoma” não deixam de ser perturbadoras, mas não são nada capaz de abalar muito profundamente as disposições cínicas de um habitante do século XXI. O diferencial de “120 Dias de Sodoma” é que, diferente dos filmes acima, o objetivo de Sade não era só entretenimento. Era abrir uma janela, uma passagem negra e reveladora para o outro lado, secreto, dos belos e brilhantes ideais do Iluminismo. Sade é bom para se pensar, como diz Lévi-Strauss. Mas para ler casualmente, isso é outra história.

(Mas pode gerar circunstâncias interessantes, como quando entrava na minha casa com o livro e meu pai, na varanda me perguntou: “Que livro grosso na sua mão, filho. É a Bíblia?”. “Não”, respondi, “são OS 120 DIAS DE SODOMA!”. Foi engraçado ver a cara de surpresa do velho, enquanto ele dizia “Caralho! Não podia estar mais errado!…”)"

Outra resenha: "Levante a mão quem já leu esse livro. Eu sou a única pessoa que eu conheço que, por enquanto, teve estômago para ler de cabo a rabo os 120 dias de Sodoma, de Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade. Escrito em 1785 em seu encarceramento na Bastilha (foi transferido pra lá depois que o Château de Vincennes foi fechado, em 1784). O Sade é um cara assim meio Edward Bunker, passou quase toda a vida preso, seja por perseguições políticas, seja pelas merdas que ele fez com suas prostitutas (reza uma lenda de que ele teria envenenado duas delas “sem querer” ao ter ministrado “pílulas para peidar”. Ele curtia umas coisas dessas).

Tenho uma “tioria” que atesta que quanto menor o tempo que o escritor leva para escrever sobre um assunto, mais presente o tal assunto está em sua vida. Pois bem: os 120 dias de Sodoma foram escritos em apenas trinta e sete dias. Bom, na verdade, a obra nunca chegou a ser completada, pois, dos cento e vinte dias do enredo, foram narrados apenas trinta. Para o resto ele fez apenas o roteiro e a descrição dos dias. Acontece que depois a Bastilha foi tomada, todo mundo picou a mula de lá e o manuscrito acabou sendo deixado para trás, apenas para ser recuperado anos depois. Foi então que essa hecatombe literária veio ao mundo.

Resumo da ópera: quatro ricaços muito pervertidos que comem as próprias filhas resolvem ir para um castelo na Suíça para passar quatro meses de pura sacanagem. Para isso contratam quatro putas velhas (chamadas “musas”) para narrar suas histórias e quatro amas. 

Seqüestram oito meninas e oito meninos virgens de idade entre 12 e 15 anos para serem arregaçados e ainda solicitam oito “fodedores”, sujeitos de pirocas enormes para enrabar os amigos (eles são chegados nisso também). A cada mês o nível de perversão aumenta. Começa leve: gente que come cocô, vômito, mija na cara, etc. No segundo mês, as “paixões duplas”: incestos mil e os water sports já mencionados. No terceiro, “paixões criminosas”: gente que sente tesão em furar um olho, arrancar um dente, cortar o dedo. Por último, “paixões assassinas”: galera que só se diverte se matar o parceiro sexual. Claro que quem sofre com isso são as criancinhas, que além de serem todas descabaçadas, ainda são lentamente mutiladas até a morte (vocês devem estar dizendo “Chega! Chega! Chega!”).


Há uma cena emblemática: Quando uma das musas narra um golden shower e os nobres mandam deitar uma das menininhas virgens na mesa para receber o mijo na cara, a menina diz algo como: “Pelo amor de Deus, senhor, não faça isso comigo senhor. Estou muito triste porque, na ocasião do meu sequestro, meus pais foram assassinados por seus capangas.” Aí um dos ricaços chega pra ela e fala: “Menina, não se atreva a falar de Deus aqui dentro. Se Deus existisse ele não deixaria a gente fazer isso com você.” Acho que essa cena resume o livro. É a crueldade desenfreada, a busca pelo prazer sem ética, tudo o que as pessoas fazem quando saem pro crime nas festinhas e não se preocupam com quem elas estão beijando, só que com uma lupa de aumento brutal que explicita o horror da coisa.

Ganhei esse livro de natal da querida tia Albinha (desconfio que se ela soubesse do que se trata esse livro, ela teria preferido me dar outra coisa) e o li enquanto pedalava bicicletas ergométricas numa masmorra chamada academia de ginástica. O livro é extremamente bem escrito, com uma prosa da era moderna fluída. Gostei mesmo da proposta do livro e recomendo para quem agüentar o rojão.

A edição da Iluminuras é linda pra caralho. Vem com um marcador personalizado preso à orelha (só destacar). Excelente diagramação e o melhor: um dos melhores desenhos de nada menos que Egon Schiele na capa. Acho que todo mundo que desenha curte, ou deveria curtir Schiele porque as poses que ele desenha não são para qualquer um. (falo mais dele se um dia for falar dos Cadernos de Dom Rigoberto). Papel pólen, pra agradar todo mundo e fonte Garamond, que eu acho meio apagada, mas estilosa demais." (Fonte: Livrada)