Na orelha, há palavras de Nogueira Moutinho, da Folha de S. Paulo, onde, em 1973, escreveu – “Cremos estar presenciando o retorno do Pequeno Príncipe: como nas fábulas antigas, se disfarça como Tistu, para só revelar sua verdadeira identidade aos que como ele possuem o polegar verde”.
As pessoas grandes têm a mania de querer, a qualquer preço explicar o inexplicável. Ficam irritadas com tudo que as surpreende. E logo que acontece no mundo algo novo, obstinam-se em querer provar que essa coisa nova se parece com outra que já conheciam há muito tempo.
Bem, voltando à depressão que se instalou no mundo (interno) de Tistu, representado pelos seus pais. Druon fala em preocupação e na sua sabedoria em descrever sentimentos numa linguagem familiar aos pequenos e ao nosso lado infantil diz:
A preocupação é uma idéia triste que nos comprime a cabeça ao despertar e permanece ali o dia todo. A preocupação dos pais/ depressão de Tistu se chamava: Não é como todo mundo! Tistu não é como todo mundo!
Momento difícil este, mas precursor indispensável da descoberta de seu potencial criativo.
Um sábio ensinamento da história é que a criatividade, o potencial criativo, tenha a forma que tiver, é a principal ajuda que dispomos nos momentos de sofrimento e crise. Tistu experimenta um incômodo sentimento de impotência diante do sofrimento alheio fosse ele por exílio ou solidão, doença ou morte.
São muitos os ensinamentos que a história de Tistu nos proporciona e é natural que cada leitor dirija uma maior atenção a alguns e menor a outros. Um trecho que prendeu muito o meu interesse diz assim:
Uma idéia que se instala em uma cabeça em breve se torna uma resolução. E uma resolução só nos deixa em paz quando a pomos em prática.
Tistu queria pôr em prática seu plano de alegrar e embelezar a cadeia de Mirapólvora. Sentia-se só no conhecimento de seu talento e no desejo de pô-lo em prática interferindo num sistema há muito estabelecido. Decide então sair só, no meio da noite. E a história continua:
A lua gosta das pessoas que passeiam de noite. Logo que viu Tistu (…) aproveitou uma nuvem que passava perto para uma polidela em seu rosto de prata.
Achei este trecho uma pérola. Todo mundo deveria saber que quando uma idéia se instala em uma cabeça e em seu desenvolvimento torna-se uma resolução, as forças da natureza colocam-se a favor de sua realização. Eu estou chamando de forças da natureza as forças do funcionamento mental, do determinismo psíquico.
No final da história, o autor reserva uma surpresa ao leitor que eu não vou revelar ao dizer que, ao final Tistu desaparece. Não desanimem de ler porque Tistu tem que desaparecer, pois só assim a história pode continuar dentro do leitor. Muitas vezes a mente sente como um fim definitivo e externo o início de um acontecimento novo e interno. Tistu desaparece para reaparecer dentro de nosso mundo interior, fertilizando este mundo.
Iniciei este misto de resenha, crônica e ensaio com as palavras de um mestre a um aprendiz. Gostaria de encerrá-lo com as de outro:
Em seguida (Bigode), tomou bruscamente nas suas mãos calejadas a mãozinha de Tistu.
― Deixe ver o polegar!
Examinou atentamente o dedo do menino, em cima e embaixo, na sombra e na luz.
― Meu filho – disse enfim, após madura reflexão – ocorre com você uma coisa extraordinária, surpreendente! Você tem o polegar verde…
― É claro, é claro que você não pode ver – replicou Bigode. ― O polegar verde é invisível. A coisa se passa por dentro da pele: é o que se chama um talento oculto. Só um especialista é que descobre. Ora eu sou um especialista. Garanto que você tem polegar verde.




