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segunda-feira, 26 de julho de 2010

O ALEPH. JORGE LUIS BORGES (1899-1986)

O Aleph - Jorge Luis Borges
O ALEPH (no original, El Aleph) é um livro de histórias curtas de Jorge Luis Borges, publicado em 1949, contendo, entre outros, o conto que dá nome ao livro. Ambos são representativos do estilo de Jorge Luis Borges e da escola literária latino-americana do realismo mágico da qual ele é indicado como uma das manifestações mais originais.

Os contos do livro Aleph são: O imortal; O morto; Os teólogos; História do guerreiro e da cativa; Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874); Emma Zunz; A casa de Astérion; A outra morte; Deutsches Requiem; A busca de Averróis; O Zahir; A escrita de Deus; Abenjacan, o Bokari, morto no seu labirinto; Os dois reis e os dois labirintos; A espera; O homem no umbral; e, finalmente, O Aleph.

Quanto ao conto, O Aleph, especificamente, o protagonista se depara com a possibilidade de conhecer o ponto do espaço que abarca toda a realidade do universo num local bastante inusitado: no porão de um casarão situado em Buenos Aires, prestes a ser demolido. Este ponto recebe a alcunha de Aleph - a letra inicial do alfabeto hebraico, correspondente ao alfa grego e ao a dos alfabetos romanos.

A idéia de unidade na multiplicidade é tema borgiano por excelência e, no conto em apreço, sua exposição literária é primorosa. (fonte: wikipedia)

"Primeira letra do alfabeto hebraico, o 'aleph' dá nome a uma das mais bem realizadas obras de Jorge Luis Borges, reunindo 17 contos - traduzidos por Flávio José Cardozo (revisão de Maria Carolina Araújo e Jorge Schwartz) - que sintetizam momentos extremamente diversificados a narrativa borgeana. Nela encontramos exemplos magistrais do gênero fantástico, em que uma prismática imaginação se desdobra nas infinitas visões da paisagem narrativa. O passado e o presente se confundem nas tramas oníricas que se contrapõem à realidade cotidiana. Uma espécie de crioulismo cosmopolita o leva a reconstruir uma épica de sua própria família, povoada de índios aloirados, passar por Tebas, pelo país do trogloditas, pela Espanha islâmica de Averróis, por desertos árabes e até por uma prisão na cidade asteca de Tzinacán, no conto 'A escrita do Deus'. Histórias de reis, imperadores e sacerdotes se amalgamam ao cotidiano de personagens insípidas, medíocres e suburbanas. (fonte: livraria cultura)

Faça download na íntegra do verdadeiro livro "O Aleph" no Scribd.com.

terça-feira, 9 de março de 2010

Os saltitantes seres da Lua. Nelson de Oliveira


“...Papai, papai, eles estão chegando, os caipiras, papai, eles estão chegando, corre, corre, papai, corre, eles estão chegando, os caipiras./ Pulavam, ao meu redor, as crianças. Comecei a rir, diante daquela cena. Pulavam em câmera lenta, como se estivessem no vácuo, na superfície da lua. Enquanto uma subia, outra descia, alternadamente, os estranhos seres da lua. Duas criaturas gordas, flutuantes, numa cratera qualquer, saldando-me alegremente.”(p. 73/74).


“Aparentemente absorvido por um zumbido composto de mil clarins, o anjo, atordoado por este acorde dissonante, sem fronteiras, ecoando entre o céu e a terra, perceptível apenas pra ouvidos refinados, divinamente abrangentes e refinados, reconhece em si parte daquela questão irrespondida, talvez “The Unanswered Question”, formulada no início dos tempos e representada por flautas, oboé e clarineta, entre outros, há alguns anos, por um compositor americano, Ives.” (p.9).


“...Ele existia, era sólido e palpável, porém, seus olhos apresentavam uma coloração terrivelmente alucinada e transparente, como se neles, mergulhado em suas pupilas quase pré-históricas, estivesse presente, muito bem aprisionado, um reflexo claro e detalhado do dilúvio universal – a catástrofe da vida, borbulhando a mais de 100° C.” (p.36/37)


Essas três passagens são apenas um aperitivo, amostra grátis do estilo de narrativa dos cinco contos que fazem parte de “Os saltitantes seres da Lua” (1997). O primeiro parágrafo faz parte do conto que dá nome ao livro, no qual nos deparamos com uma espécie de guerra “conceitual”, choque de culturas levadas ao extremo, talvez o único tipo de guerra que poderia haver num povo antibelicista e pacífico por natureza como o brasileiro. O segundo parágrafo pertence ao conto “Nowhere man” e o terceiro ao conto “Naquela época tínhamos um gato”. O escritor Nelson de Oliveira é um pesquisador de estilos, garimpeiro de bons escritores e já escreveu e organizou livros de sucesso no meio literário como “Geração 90: manuscritos de computador”, “Geração 90: os transgressores”, “O século oculto” e outros. Tudo isso lhe deu um estilo diversificado e único que torna sua escrita leve, objetiva, direta, simples e acessível a qualquer leitor. Os contos de Nelson de Oliveira não cansam nem enjoam, são de uma digestibilidade impressionante. Em “Os saltitantes seres da Lua”, como bem diz numa das orelhas do livro, o autor “faz uma viagem em que percorre a infância e a maturidade, em seus desafios éticos, morais, suas perdas e crises, desespero e transformação”. O estilo “fantástico”, ou do “realismo mágico”, como alguns preferem, está presente nos contos de forma discreta em alguns e, em outros, nem tanto, mas imprescindível para a percepção da trama pelo leitor. A meu ver, o realismo mágico é que dá “cor” e “sabor” aos contos e, admito, sou fã incondicional do estilo e do escritor, claro.


Os saltitantes seres da Lua. Nelson de Oliveira. Editora Relume Dumará. 1997. 86 páginas. R$25,90 na Livraria Cultura.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Contos Reunidos. Murilo Rubião

Ávido por novidade? Só que não é tão novo assim. Disposto a saborear a obra completa de um escritor numa única brochura? Não, calma. Nada de 1000 páginas, em tipo arial 8 ou menor, folhas de seda como as de bíblia, onde urge uma lupa. Falo de Murilo Rubião, em “Contos Reunidos”. Rubião é um escritor quase que esquecido pela Imprensa Literária. Trata-se de mais uma grande injustiça para quem, ao lado do também grande José J. Veiga, tornou-se referencial do gênero fantástico na Literatura Brasileira.


O mineiro de Carmo de Minas, MG, Murilo Eugênio Rubião é de 1916 e estreou tardiamente, aos 31 anos, em 1947, com “O ex-mágico”. Em 1953, “A estrela vermelha”; depois “Os dragões e outros contos”, de 1965; “O pirotécnico Zacarias”, de 1974; “O convidado”, também de 1974; “A casa do girassol vermelho”, de 1978; e “O homem do boné cinzento e outra histórias”, de 1990. Rubião faleceu em 16/09/1991. Este volume póstumo, de 2005, “Contos Reunidos” traz todos os contos do autor de forma definitiva, em última versão. Tem até um conto inédito chamado “A diáspora”. Falo “em forma definitiva ou última versão”, porque Murilo Rubião tinha um estranho hábito: o de estar sempre revisando e reescrevendo seus contos, mesmo depois de publicados. Então a releitura dos seus contos é sempre uma grande e agradável surpresa.


A temática dos contos de Rubião não é repetitiva, mas traz uma constância: a abordagem do absurdo, do inconcebível, das coisas inexplicáveis, com características até surreais, dando uma sensação de estranhamento nas pessoas. Este recurso estilístico se popularizou com Franz Kafka, depois se repetiu com sucesso, principalmente, através dos argentinos Julio Cortázar e Jorge Luís Borges. No Brasil, Rubião e José J. Veiga são os principais expoentes do gênero, mas com um quê a mais, pois trazem aquela peculiaridade só nossa, característica dos bons escritores nacionais. Rubião, ao ler a crítica a respeito do seu primeiro livro, estranhou a caracterização da sua obra por uma suposta “influência kafkiana”, no que alegou que jamais havia lido Kafka antes da publicação. Sob o artifício do aparente absurdo sem propósito, do ilógico, do “non sense”, o escritor traz à tona o absurdo do cotidiano da nossa realidade, a qual deve e precisa ser revista e questionada, sob pena da alienação e do conformismo. Pois, se ainda não perceberam, a rotina de dias tão iguais, que só conseguimos distingui-los pelos calendários ou pela programação da tevê, se não nos torna meio autômatos, cega-nos justamente naquilo que não queremos enxergar.


“Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior. Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores. Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude. Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota.(...) Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos. Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.” (“O ex-mágico da Taberna Minhota” – 1947)


“A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso, com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, quase sem cor. Sem cor jamais quis viver. Viver, cansar bem os músculos, andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens.” (“O pirotécnico Zacarias” – 1974)


“Bárbara gostava somente de pedir. Pedia e engordava. Por mais absurdo que pareça, encontrava-me sempre disposto a lhe satisfazer os caprichos. Em troca de tão constante dedicação, dela recebi frouxa ternura e pedidos que se renovavam continuamente.(...) Desorientado, sem saber como proceder, encostei-me à amurada. Não lhe vira antes tão grave o rosto, tão fixo o olhar. Aquele seria o derradeiro pedido. Esperei que o fizesse. Ninguém mais a conteria. Mas, ao cabo de alguns minutos, respirei aliviado. Não pediu a lua, porém uma minúscula estrela, quase invisível a seu lado. Fui buscá-la.” (“Bárbara”, p.33)


“Alguns dias transcorridos, perdurava o mesmo caos. Pelos cantos, a tremer, Teleco se lamuriava, transformando-se seguidamente em animais os mais variados. Gaguejava muito e não podia alimentar-se, pois a boca, crescendo e diminuindo, conforme o bicho que encarnava na hora, nem sempre combinava com o tamanho do alimento. Dos seus olhos, então, escorriam lágrimas que, pequenas nos olhos miúdos de um rato, ficavam enormes na face de um hipopótamo. Ante a minha impotência em diminuir-lhe o sofrimento, abraçava-me a ele, chorando. O seu corpo, porém, crescia nos meus braços, atirando-me de encontro à parede.” (“Teleco, o coelhinho”, p.143)


Bem. Sei que meu esforço aqui será em vão. Para saber e tirar suas próprias conclusões sobre a produção impar do magnífico Murilo Rubião, só lendo mesmo. O livro está aí. “Contos Reunidos”, apenas 276 páginas, com letras normais, papel padrão. Editado pela Editora Ática, São Paulo, 2005.


Mais informações sobre o autor, acesse:

http://www.murilorubiao.com.br/



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Torvelinho dia e noite. José J. Veiga


Em "Torvelinho Dia e Noite", José J. Veiga não foge da temática do realismo mágico, só que desta vez o faz mais sutilmente, de maneira estratégica. O assombro vem bem aos poucos, como crendice popular, “diz-que-diz-que”, mero boato, até que o surpreendente e o fantástico, sempre presente em seus livros, vai sendo absorvido pelos personagens, e também pelo leitor, como normalidade. Muito mais que metafórico, o mágico de Veiga é a nossa realidade, mas nós, ao nos tornarmos adultos, é que perdemos a capacidade e só não vemos por mera teimosia e pretensa arrogância.

Acontecimentos particulares e universais são descritos, pelo modo muito pessoal do autor, revelando-nos os medos e as grandes preocupações do homem moderno. Em "Torvelinho Dia e Noite", uma pequena cidade de interior de Minas Gerais, acontecimentos estranhos e misteriosos provocam profundas mudanças no comportamento e nos hábitos cotidianos dos seus habitantes. Fantasmas são vistos por várias pessoas, repetindo a temática da alucinação coletiva, que é o remédio e não a doença; há uma invasão de estranhos, turistas e desocupados, perturbando o sossego dos habitantes; e as flores, muitas flores, que falam, e transformam a cidade numa selva, voltando mais uma vez à análise comportamental das pessoas com o inusitado.

Esta obra de José J. Veiga, mais uma vez deixa uma dúvida: trata-se de um romance ou uma fábula moderna? Apesar desta incerteza, "Torvelinho Dia e Noite" é uma divertida história de suspense, abordando o amadurecimento das pessoas, quando são pressionadas por "acontecimentos insólitos", sentindo que a realidade cede lugar à fantasia.

O fantástico utilizado nas obras de José J. Veiga difere, e muito, daquele de outros grandes autores do gênero, como Kafka, Borges e Cortázar. O autor brasileiro nos exibe um mundo fantástico "a partir da mais corriqueira realidade", fazendo com que o leitor se identifique muito com o que lê, sem susto ou descrença. E, mais uma vez, Veiga nos presenteia com os incríveis topônimos de sua autoria, assim como a cidade de “Manairarema” de “A hora dos ruminantes” e a “Taitara” de “A sombra de reis barbudos”, agora é a vez de “Torvelinho”.

Com uma maneira genuína de escrever, o escritor goiano é hoje considerado um dos nomes mais brilhantes da literatura nacional, cujos livros não se prendem a tempo ou lugar, exemplo de obras universais, muitas das quais traduzidas com sucesso para vários países.