Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura de 2007, o livro de Maurício de Almeida é um livro de contos. No entanto, à exceção do primeiro "Três a caminho" (com algumas características padrões de narrativa) e o último "uma pedra à mão" (algo mediano como um poema em prosa), os demais foram utilizados para uso experimental de uma espécie esdrúxula de reflexão filosófico-existencialista de personagens que se confundem como se fossem um só. Os contos parecem ser sempre o mesmo, como se o leitor estivesse lendo sempre a reflexão do mesmo personagem do mesmo conto da mesma página. Gerando uma desconfortável e tediante agonia. Não compreendi realmente a idéia do experimento, que até ousou, desnecessariamente, na estrutura formal do texto, com omissão de pontos finais, dando a sensação de falta de ar e insatisfação. Há excesso de adjetivos e advérbios, tornando as frases muito cansativas, passando a idéia de constante repetição. Coloco aqui um trecho da obra que, em parte, resume o que quero dizer do conteúdo dos contos:
"Zuniam entre eles murmúrios de palavras esquecidas e outras irremediavelmente pronunciadas na inconstância da busca por entendimento - aquele era um silêncio de ecos, apenas." (p. 102, conto "Instante") negritei;
Na contra-capa, Daniel Piza faz um esforço em resumir a obra, dizendo vaga e imprecisamente: "...Maurício de Almeida consegue uma combinação incomum entre a linguagem inventiva e a fluência narrativa. Lança mão de vários recursos técnicos sem ser cansativo (?) ou obscuro, pois sua razão de ser está na própria história que conta... A partir de cenas e falas banais do cotidiano, o autor faz um exame das tensões nos relacionamentos humanos, por gênero ou geração. As vozes dos personagens são críveis e há belos achados verbais (?)."
Claro que discordo do que diz o Daniel Piza, mas "cada um" é "cada um". É comum na leitura de um texto, o leitor fazer aquela imagem mental, como um pequeno filme, mas em "Beijando Dentes" a imagem do filmezinho vem nublada, densa, difícil, gerando um desconforto, uma insegurança.
Leyla Perrone-Moisés fala em "coletânea... de contos fortes, tanto pela temática, geralmente sombria, como pela linguagem. Encontramos aí monólogos e diálogos de personagens exaltados, quase alucinados..." (orelha do livro).
A partir daí concluo que "Beijando Dentes" não é um livro ruim, não, absolutamente. Vencedor de um prêmio, em cuja disputa concorreram mais de mil escritores. Trata-se de um livro difícil, incomum, que não irá agradar ao leitor convencional, acostumado com certos padrões literários. Contudo, acredito que a inovação apresentada por Maurício de Almeida tem justamente no maçante, na angústia e no desconforto seu ponto positivo. É ler para crer.
Ainda adolescente, li "A insustentável leveza do ser". Décadas mais tarde, assisti ao filme homônimo com Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche (sempre linda). Vi um imenso vazio entre livro e filme, mas valeu o esforço. Ler Kundera é meio comprimido de ecstasy (ou algo mais barato (nos dois sentidos), que seja empolgante). Uma viagem, com a diferença de que a gente sempre volta, e melhor.
"A degustação do tempo. A sua recusa como passagem transversal de vacuidade. A sua aceitação enquanto usufruto de uma totalidade hedonística. Aqui a vida é composta por generosas movimentações xadrezísticas, cerebrais e emocionais, abstractas e concretas, e é nesse tabuleiro pleno de ressaltos espaciais e temporais que as personagens díspares, incoerentes e profundamente humanas de Kundera se deslocam sem nunca na verdade se deslocarem. Existências longínquas entrecruzam-se sem nunca se cruzarem numa real conjugação de experiências menores ou maiores.
E é nesta estaticidade que também é uma circularidade que reside a génese da obra... os tempos e os espaços apenas se tocam, apenas se reconhecem e saúdam graças à lentidão, esse conceito abstracto que parece um rotundo nada, mas que se prolonga em reticências múltiplas até desembocar no concretismo absoluto e talvez por isso mesmo, absurdo. As “peças” humanas estão dispostas numa ordem imperceptível, aleatória, mas lógica e apenas os sentidos desbaratados pelos desafios emotivos proporcionados pelo jogo constante, calculado ou instintivo, que as personagens entre si ou dentro de si e contra si próprias disputam, as fará compreender e assimilar, ainda que casual e inconscientemente, a “matemática existencial”, feita de rectas e curvas e equações e adições e subtrações e muita, muita incerteza. Vejamos o que o narrador nos diz a este respeito:
«..., esta experiência assume a forma de duas equações elementares: o grau da lentidão é directamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é directamente proporcional à intensidade do esquecimento.». E é a memória de um acontecimento com dois séculos que reúne dois homens marcados por um rendez-vous único, irrepetível, logo seguido de desencontro amoroso, da amargura do dia seguinte. O inverosímil encontro dos dois homens pertencentes a épocas distintas, levanta o véu do significado da enigmática lentidão que mais não é, afinal, do que a permanência dos afectos no seu imortal cultivo. A lentidão é plural e solidifica-se em raízes inquebrantáveis de velhas árvores seculares." Por Carla Milhazes Gomes.
Editora: Global Autor: IGNACIO DE LOYOLA BRANDAO ISBN: 9788526012974 Origem: Nacional Ano: 2008 Edição: 27 Número de páginas: 384
Livro publicado no ano de 1981, com Ignácio de Loyola Brandão em estado de graça, genial ao extremo. Um livro reconhecido e premiado internacionalmente, capaz de transportar literalmente o leitor para um mundo futurista (mas nem tanto) caótico, apocalíptico, sem fronteiras, sem bairrismo, universal. Sob uma atmosfera sombria e angustiante, deparamo-nos com um retrato de uma sociedade convivendo com o caos e a destruição causados por ela mesma (não muito diferente da nossa atual). Um livro denso e chocante, mas ao mesmo tempo intrigante e instigante, capaz de prender o leitor do início ao fim. A leitura lembrou-me do filme "Soylent Green" (No ano de 2020 - na versão tupiniquim), ou, atualmente, de outras versões não tão apocalípticas, mas de advertência. Acredito que a ex-senadora Marina Silva deva ter lido este livro.
A seguir um comentário sobre o livro que achei interessante, cujo link está no final:
"No livro "Não verá país nenhum", o escritor nos leva a um futuro apocalíptico. Teremos a cerimônia do corte da última árvore no Brasil, beberemos com naturalidade água reciclada de urina e, visitaremos o museu da água, onde veremos águas engarradas do passado que destruimos. O livro é um alerta bastante sério do que nos espera no futuro. A educação ambiental-ecológica pode nos salvar se houver interesse político, infelizmente nada se faz nesse país sem que antes tenhamos o beneplácito, aval ou benção da classe política. Mas, porque eles tendo todo o poder nas mãos não fazem nada para nos salvar do desastre ambiental que o autor Ignácio de Loyola Brandão nos alerta? Infelizmente não todos, há exceção (Senadora Heloísa Helena, como exemplo) mas, a grande maioria, são eternos aves de rapina, sanguessuga do trabalho dos outros, vampiros e carcarás sanguinolentos que nos exploram e não estão preocupados nem com o Brasil, nem com o futuro. Leiam o livro, vamos divulgar, conscientizar que o mal está próximo, vamos criar movimentos no sentido de salvarmos o nosso país. Não verá país nenhum, um livro que impressiona, assusta e conscientiza ! Wilson Martins Prof. de Oratória - Juatuba-MG 31 35357468 -9995 5884 31 35358142 - Instituto J. Andrade."
Um livro para se ter o fiel retrato da decadente sociedade britânica nos séculos XVIII e XIX, com passagens marcantes e comoventes. Um livro que se tornou um clássico de literatura universal.
"Neste livro, o grande escritor inglês Thomas De Quincey (1785-1859) fala de sua descoberta do ópio, como se fosse a revelação da verdade divina.
“Esta é a doutrina da verdadeira igreja sobre o ópio, da qual eu sou o único membro”, dizia ele. O ópio, não o comedor de ópio, é o “verdadeiro herói da história”.
O livro foi escrito também com o disfarçado propósito de mostrar a força específica do ópio sobre a faculdade de sonhar, “mas muito mais com o propósito de mostrar essa faculdade”. A verdadeira originalidade do livro — e nisso todos os intérpretes parecem de acordo — não é o registro do caso de um viciado em ópio, mas o fato de ser um estudo pioneiro da interferência do subconsciente nos sonhos. Nele De Quincey inicia a exploração da mente, principalmente a da criança, que aprofundaria em outro trabalho, Suspiria de Profundis. (...)
De Quincey foi um comedor de ópio por quase cinqüenta anos, e as doses variaram durante esse tempo. Era considerado um excêntrico, vivia em quartos infectos e entre pilhas de jornais; comia mal e pouco, e normalmente andava de noite para se manter na cama durante todo o dia. Era incapaz de lidar com dinheiro, de observar horários e datas, porque não estava preparado para perder tempo com esse tipo de insignificâncias. (...)
Cortês na hora de falar, mas algumas vezes malicioso e mesmo impertinente ao escrever; superficialmente conhecido, mas inatingível nos mais fundos recantos de sua mente.
“Havia encontrado uma panacéia para todos os males humanos: aqui estava o segredo da felicidade, sobre a qual os filósofos haviam discutido durante tantos anos. A felicidade podia agora ser comprada com uma moeda e carregada no bolso do casaco: êxtases portáteis poderiam ser engarrafados e a paz de espírito poderia ser remetida em galões pela diligência do correio. Mas, falando desse modo, o leitor poderá pensar que estou brincando. Posso assegurar, entretanto, que ninguém brincará muito tempo quando estiver mexendo com o ópio.” (Thomas De Quincey em seu Confissões de um Comedor de Ópio, quando falava a respeito dos prazeres do ópio.)"
Contos curtos e dinâmicos, estruturados em narrativas com estilo contemporâneo de literatura. O autor soube dosar, com maestria e fugindo da soberba, seu amplo domínio das variações estilísticas, sem cair na monotonia ou beirar a incompreensão. São narrativas para criar desconforto, incômodo, frustração intelectual até. Devemos ler mais, muito mais, sem limite. As certezas do autor são questionadas e questionáveis. E elas aparecem ora como se fossem proverbiais, ora como simples (?) reflexão filosófica e estão ali para intimidar o leitor. Não que isso seja negativo, mas é uma situação que nos desafia. Reflexão nunca é demais. As “palavras” são escolhidas apropriadamente, trabalhadas, dissecadas, sufocadas até, para que o leitor descubra seu nivelamento. As citações de livros, autores, música, filmes, são para criar certos “links” e então tirarmos o traseiro do sofá e ir em busca do saber. Que também nunca é demasiado.
O nome do livro, por acaso, coincide com o título de um dos textos (contos) da obra, mas acredito que não foi este o motivo da escolha pelo escritor. Em “As certezas e as palavras”, o autor catarinense trabalha reiteradamente com ambas as expressões nos 20 contos que integram o livro.
Carlos Henrique Schroeder, em certos textos, apresenta narrativas com palavras ásperas e duras, mas sempre apropriadas (em momentos), as quais todos conhecemos, embora o uso delas pelos leitores varie pelo grau de auto-policiamento vocabular. Outras vezes, talvez num excesso ou vacilo intelectual, não sei, chega à perfeição, como em “Indie” (p.82), sublime e encantador. Mais uma prova de que a literatura não é uma forma de fuga da realidade. A literatura tem sua função social: questionar, induzir à reflexão. Pode não ser sempre “de todo”, mas “principalmente”. O livro de Carlos Henrique Schroeder é excelente em todos os aspectos. O meu próximo da lista é “Ensaio do Vazio” (2006 - do mesmo autor). Agora já sei o que me espera. Boa leitura a todos.
A seguir, outros comentários. Só para não dizerem que estou exagerando ou mentindo:
"As Certezas e as Palavras é o nono livro do escritor catarinense Carlos Henrique Schroeder. Reúne mais de 20 contos deste autor, alguns deles inéditos, outros já editados em coletâneas, revistas ou jornais nos últimos cinco anos. As relações entre as certezas e as palavras são o tema de uma série de histórias sólidas, totalmente viscerais e desafiantes, tanto em linguagem quanto em técnica." Correio do Povo, 20/3/2010.
"Em 19 contos curtos, o autor catarinense desfia uma narrativa irônica e afiada ao construir personagens inusitados, como os irmãos que vão passar um tempo juntos no cemitério a pedido da mãe ou aquele que encara os rodapés de livros como a parte mais interessante da vida. O nono livro de Schroeder é dividido em cinco partes e traz ainda homenagens a Virginia Woolf, Rimbaud e Shakespeare." Correio Braziliense, 18/2/2010.
"Não é à toa que Formas breves, do argentino Ricardo Piglia, é lido por um dos personagens de Schroeder. Ele sabe que o conto precisa ir direto ao assunto e que sua essência está no esmero técnico. Como também o disse Cortázar, o conto se faz menos de "o que diz" e mais do "como diz". O uso de elipses, do diálogo sem maiores caracterizações de espaço e tempo, o encadeamento de cenas que lembra o texto para teatro sem rubricas, a linguagem debochada e o ritmo vertiginoso são algumas das qualidades desse As certezas e as palavras." Resenha de Ieda Magri, no Ideias & Livros, do Jornal do Brasil, 26/2/2010.
Parto de um jargão que circula nas bocas do povo, mas que deixou de significar uma verdade há muito tempo: “nada mais me surpreende neste mundo!”. Mentira, engano, tolice. Sim. A qualquer momento somos supreendidos. Como agora, depois de ler “Os anões”, de Verônica Stigger. Fosse um filme, este livro, nos Estados Unidos, renderia manchetes apelativas tão comuns, entre os gringos, na revista Time, ou numa Vanity Fair da vida: “Unforgettable!”, “The best book of the year!”.
Este livro me foi sugerido pelo escritor Otto M.. E costumo apreciar e respeitar suas sugestões, pois são excelentes: filmes, músicas, clipes, livros. E, tão logo, recebi a sugestão, encomendei pela internet, com a garantia de que o conseguiria em tempo hábil. Um dia antes da chegada do livro, leio na revista “Aplauso”, a crítica do colunista André “Cardoso” Czarnobai, na página 47, intitulada “Futuro do Pretérito”: “... Em suma: se ainda não representa o futuro do livro em sua mais profunda essência, pelo menos “Os anões” é, na pior das hipóteses, um movimento muito inteligente nessa direção.”
“Os anões” revoluciona, de certa forma, em vários aspectos, não só na forma externa do livro (negro, compacto, sem costura, páginas lustrosas e duras como plástico), mas pelo conteúdo. Mistura de “non-sense” e “realismo-mágico” ou “fantástico”, como aqueles filmes curta-metragem da série de tevê americana “the twilight zone”. O absurdo encarado com espantosa naturalidade, para nos incomodar mesmo, para nos fazer mudar a posição do traseiro no sofá ou na poltrona, coçar a cabeça, blasfemar, soltar palavrão. Para nos forçar a dizer desnecessariamente: “Meu Deus, que loucura!”. Ou então, confirmarmos a teoria científica dos “mundos paralelos”, os quais existiriam cotidiana e simultaneamente ao nosso, e, com provável certeza, estão nas nossas mentes. Nas cabeças maravilhosas dos escritores, principalmente desses tachados de malucos e perigosos, como “Verônica Stigger”.
Parabéns à Editora CosacNaify, que viu no conteúdo contemporâneo e ousado de “Os anões” a necessidade de uma encadernação à altura do trabalho de Verônica Stigger. Não acreditam? Acham que estou exagerando, ou fazendo markenting para a editora? Então leiam a crítica de Czarnobai. As palavras em maiúsculo são do próprio Czarnobai.
“Futuro do Pretérito. Por André “Cardoso” Czarnobai.
Coisa de três anos atrás, TODA vez que era convidado a opinar sobre o FUTURO do LIVRO em qualquer FÓRUM que aparecesse pela frente, apresentava sempre a mais FUNESTA dos ESTIMATIVAS: o livro vai ACABAR, O Livro vaI FENECER. Isso nem está mais em questão. O que está em questão é QUANDO isso vai acontecer. Cinquenta anos de SOBREVIDA, meu prazo mais OTIMISTA. Logo, diante dos números cada vez mais CALAMITOSOS que emanavam de pesquisas sobre a leitura na JUVENTUDE, senti o ABRAÇO fatal: o livro não deve durar nem outros VINTE.
Pano rápido. De volta para o FUTURO.
Apoiado numa série de fatores, fatos e impressões que não cabem aqui serem ESMIUÇADOS, hoje já não mais ADMIRO (suporto, endosso ou defendo) a ideia de que o livro vá EXPIRAR algum dia. Todavia, não mais creio que seguirá SENDO o que TEM SIDO até aqui. Para seguir RELEVANTE, o livro precisará MUDAR. Nem tanto no nível da linguagem ou das mensagens — como se debatia no início TAMPOUCO nos formatos em que será distribuído e consumido — como se debate agora. O que o LIVRO precisa renegociar fundamentalmente é a MANEIRA como as pessoas o percebem e a RELAÇÃO que elas têm com ele. Mas COMO fazer isso? Por onde começar? Nesse momento de incerteza, teorias, escolas e correntes de pensamento EMERGEM de todos os lados. Cada uma aponta numa direção. TODAS incentivam EXPERIMENTOS. Alguns dão certo. Outros, não. Nenhum deles é definitivo, nenhum deles é em VÃO.
Na minha ÓTICA, o livro IMPRESSO deve se ADAPTAR às forças de mercado e avanços tecnológicos, embarcando na VIBE de OBJETIFICAÇÃO que impera em nossos tempos. Sendo mais direto: o livro precisa reforçar seu caráter de OBJETO, algo que é desejável não apenas pelo seu CONTEÚDO, mas também pela sua FORMA.
Pois parece que foi EXATAMENTE isso que percebeu Emilio Fraia, coordenador editorial de Os Anões, terceiro e mais ousado livro de Verônica Stigger (CosacNaif, 2010). Nunca o futuro do IMPRESSO me pareceu tão POSSÍVEL Ainda que seja evidentemente um LIVRO, a narrativa que este VOLUME encerra se estende muito ALÉM do texto, incluindo aspectos VISUAIS e TÁTEIS na equação.
REPOUSANDO quietinho sobre a mesa, protegido pela capa preta LUSTROSA, Os Anões parece um daqueles romances de FÔLEGO por conta de sua aparência BRUTA de CALHAMAÇO. O peso FORMIDÁVEL também prega esta PECINHA ASTUTA nos sentidos: é IMPOSSíVEL não concluir de que se trata de VOLUME de 500 páginas quando o tomamos nas mãos pela primeira vez.
Ao FOLHEÁ-LO, contudo, logo se constata o ENGANO — a primeira de uma sequência de pequenas estranhezas contidas nesta perturbadora jornada pela LÉPIDA e ARISCA prosa de Veronica. Tudo acontece muito RÁPIDO, tudo dá muito ERRADO, e quando a gente finalmente consegue se recompor das últimas linhas e vira a página com PRESSA, o que aparece do outro lado é um quadrado NEGRO, de bordas ROLIÇAS, sozinho num fundo branco, sem nenhuma explicação.
Entre um quadrado e outro, os NANICOS de Veronica percorrem os mais SORUMBÁTICOS porões da imaginação, chutando com força as CANELAS confortáveis de quem se atreve a acompanhá-los. ÜBBER-violência, cilício severo e CINTADA NA CARA são atmosferas recorrentes no livro, conferindo um tom NUBLADO e DENSO à prosa breve, direta e quase coloquial da autora. Ato de GOLPEAR face humana com FIVELA, todavia, não aparece em nenhuma das histórias do livro. Mesmo assim, prepare-se para sentir aquela dor no FIGO ao longo da leitura: eis um Iivro que sabe MACHUCAR.
MÁCULA mais grave no FASCÍCULO: a poesia baseada em EXCERTOS de anúncios classificados de apartamentos. Entendo, é claro, o evidente CUTUQUE que a Veronica crítica de arte oferece ao CONTEMPORÂNEO nestes (e em vários outros) momentos do livro, mas NESTE em específiCo, achei que NHÉ. Não funcionou tão bem. Em outros, porém, sucesso e PLENITUDE sem fim.
Em suma: se ainda não representa o FUTURO DO LIVRO em sua mais profunda essência, pelo menos Os Anões é, na PIOR das hipóteses, um movimento muito inteligente nessa direção.” (revista Aplauso, nº 107, p. 47)
Os anões. Veronica Stigger
Editora CosacNaify
60 páginas
R$37,00 na Livraria Cultura
"... Eu pularia no pescoço do sujeito. Mas não a socrática Manuela. Ela simplesmente redargüiu:
- De que modo ser o que sou impede você de ser o que é?
Pergunta intrincada. O rapaz parou por uns instantes de sorrir. Talvez para pensar melhor na resposta. Que respostas ele teria para esse dilema? Nenhuma..."
Passagens como essa, dão uma pequena amostra do excelente texto apresentado na história "Espelhos e Miragens", de Hanna K.
Com muito sacrifício, consegui compactar sete capítulos em 35 páginas, e todo o esforço não foi em vão. "Espelhos e Miragens" traz um história muito atual e gostosa de se ler.
"Espelhos e Miragens", de Hanna K., é um "livro" surpreendente, instigante, repleto de sentimento e de reflexão socio-cultural, que força o leitor a repensar conceitos e valores.
A autora traça um retrato fiel e comovente de uma personagem e seu processo de autoconhecimento diante de um amor proibido, homossexual, lésbico, e suas conseqüências num mundo repleto de preconceito e alienação "heterossexo-cultural".
Hanna K. utiliza vários tópicos socio-culturais para retratar o dilema pessoal da personagem Ana Paula, a qual entra em crise ao descobrir sua homossexualidade, sem saber como agir ao assumir-se perante a sociedade, principalmente familiares e amigos.
Destaque deve ser dado às referências bibliográficas e musicais, os monólogos reflexivos da personagem principal, e as citações iniciais dos capítulos, os quais abrilhantam ainda mais uma história emocionante.
A personagem Manuela possui traços marcantes e é descrita de tal forma por Ana Paula, que chega a ser apaixonante, retratando com exatidão e minúcias o que se passa na mente de uma jovem diante de uma paixão por outra mulher, contrapondo toda uma educação conservadora e heterossexual.
A autora revela oportuna e sutilmente dados culturais, que, aliados a um domínio incomum de linguagem e escrita, resultam numa narrativa densa, e ao mesmo tempo, rica, fluente, onde se alternam reflexão e crítica social.
Hanna K. é o codinome da professora Kelma Gallas. Talento não lhe falta.
O ALEPH (no original, El Aleph) é um livro de histórias curtas de Jorge Luis Borges, publicado em 1949, contendo, entre outros, o conto que dá nome ao livro. Ambos são representativos do estilo de Jorge Luis Borges e da escola literária latino-americana do realismo mágico da qual ele é indicado como uma das manifestações mais originais.
Os contos do livro Aleph são: O imortal; O morto; Os teólogos; História do guerreiro e da cativa; Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874); Emma Zunz; A casa de Astérion; A outra morte; Deutsches Requiem; A busca de Averróis; O Zahir; A escrita de Deus; Abenjacan, o Bokari, morto no seu labirinto; Os dois reis e os dois labirintos; A espera; O homem no umbral; e, finalmente, O Aleph.
Quanto ao conto, O Aleph, especificamente, o protagonista se depara com a possibilidade de conhecer o ponto do espaço que abarca toda a realidade do universo num local bastante inusitado: no porão de um casarão situado em Buenos Aires, prestes a ser demolido. Este ponto recebe a alcunha de Aleph - a letra inicial do alfabeto hebraico, correspondente ao alfa grego e ao a dos alfabetos romanos.
A idéia de unidade na multiplicidade é tema borgiano por excelência e, no conto em apreço, sua exposição literária é primorosa. (fonte: wikipedia)
"Primeira letra do alfabeto hebraico, o 'aleph' dá nome a uma das mais bem realizadas obras de Jorge Luis Borges, reunindo 17 contos - traduzidos por Flávio José Cardozo (revisão de Maria Carolina Araújo e Jorge Schwartz) - que sintetizam momentos extremamente diversificados a narrativa borgeana. Nela encontramos exemplos magistrais do gênero fantástico, em que uma prismática imaginação se desdobra nas infinitas visões da paisagem narrativa. O passado e o presente se confundem nas tramas oníricas que se contrapõem à realidade cotidiana. Uma espécie de crioulismo cosmopolita o leva a reconstruir uma épica de sua própria família, povoada de índios aloirados, passar por Tebas, pelo país do trogloditas, pela Espanha islâmica de Averróis, por desertos árabes e até por uma prisão na cidade asteca de Tzinacán, no conto 'A escrita do Deus'. Histórias de reis, imperadores e sacerdotes se amalgamam ao cotidiano de personagens insípidas, medíocres e suburbanas. (fonte: livraria cultura)
"A obra “Os Gestos”, de Osman Lins, reúne contos do autor, escritos na década de 50. Em treze contos, o autor nos fala da angústia e da impotência do ser humano. Numa linguagem sóbria e expressiva, quase sem diálogos, desenvolve temas como a perda, o conflito de gerações, a falta de afeto, a passagem do tempo, a passagem da infância para a adolescência, a busca da liberdade.
Esses temas transmitem toda a insatisfação, o inconformismo e a ansiedade da juventude, de um jeito tão vivo, com palavras tão exatas, que sempre atingem e impressionam. A atualidade das histórias e dos conflitos surpreende. Como acontece com a própria juventude, os contos aqui apresentados nos passam um clima de revolta não-explicada, o sentimento de personagens que desejam o mundo mas ainda não conseguiram sair do quarto. O difícil instante da adolescência.
Neste livro encontra-se o rigor formal característico deste autor - artesão da palavra -, além de entrar em contato com os personagens preferidos de Osman: crianças, velhos, pobres, doentes, mulheres flagradas em ações cotidianas, todos inseridos num ambiente doméstico opressor. Nos contos de Os Gestos, o silêncio representa a impotência das personagens.
Nestes contos, o autor apresenta um aspecto inusitado ao formato usual das narrativas: uma abordagem predominantemente lírica da condição humana, observável na forma como expõe os sentimentos, os relacionamentos afetivos, e as limitações e incapacidades do ser humano perante a vida. Para isso, Osman Lins utiliza-se largamente da análise do pensamento das personagens, de seus fluxos de consciência mais íntimos, e da análise de seus pequenos gestos, simples e singelos, mas carregados de significado e sentimento, nunca fugindo do contexto da impotência do ser humano frente às situações da vida, tema que marca toda essa coletânea de contos. Aspectos que usualmente fogem às narrativas, talvez por não possuírem uma suficiente carga dramática, ou seja, ações e diálogos. Em Os gestos, Osman já fugia de temas que podiam o acorrentar ao rótulo regionalista (em Osman, a ação costuma ocorrer de dentro para fora).
Em resumo, são contos extremamente líricos que abordam detalhes da interioridade humana. Detalhes que em geral escapam da percepção comum, mas que foram captadas pela sensibilidade deste autor. A obra Os Gestos segue uma linha de tom realista, com cenas vazadas por fortes doses de lirismo que em alguns momentos tende ao expressionismo. Doentes, crianças, um discurso feito em face de um morto, o triste reencontro de dois amigos de infância: são cenas fechadas, que se passam na intimidade dos personagens e registram a impossibilidade do amor e questões ditadas pela morte. A melancolia e o pessimismo são marcas desses contos. Nessa obra vemos alguns recursos de que Lins vai se valer depois, como experiências com discurso indireto livre e com as combinações possíveis de um enredo.
Em todas as histórias deste livro, imperam o silêncio e a força dos gestos. São personagens em momentos de ruptura, ou em que a aparente banalidade esconde o quanto de profundidade e lirismo há naquelas vidas relatadas."
Resenha retirada do site "Passeiweb". Para ler a resenha completa, acesse:
Objetos turbulentos é o título do mais recente livro de José J. Veiga, um título que poderá não atrair algum leitor, mas que é no mínimo pertinente ao conjunto das onze histórias curtas que a Bertrand Brasil entrega ao público com um subtítulo que é também uma sugestão: “contos para ler à luz do dia”.
Tendo como elemento detonador de cada trama um diferente objeto, a princípio insignificante ou de menor valia, mas que se transforma em centro de atenções dos personagens — e, obviamente, dos leitores —, Veiga percorre em cada história a curva ascendente e descendente do prazer à turbulência, fazendo com que esses mesmos simples objetos desencadeiem crises existenciais, como no excelente “Cachimbo”, transcendam a realidade pelo onírico, como em “Cadeira” e “Vestido de Fustão”, ou se tornem símbolos de um indesejado reverso da vida, como em “Espelho”.
Primoroso na sua concepção e no seu significado, “Cachimbo”, certamente o mais impactante do conjunto, faz do objeto de prazer e relaxamento um instigador da inveja, do preconceito e até, mais explicitamente, do racismo, curiosamente entre os da mesma raça. “Espelho”, na sua dimensão metafórica, admitiria a célebre leitura das entrelinhas na análise da sua real significação. “Cadeira” levaria o leitor àquela outra realidade jamais inteiramente desvendada, a do imaginário, tantas vezes mais incômoda e complexa que a cotidiana. O desejo de reconquista do objeto extraviado, em “Manuscrito Perdido”, é a ascendência da curva, que vai descender na turbulência da compreensão da sua exata importância. E o “Caderno de Endereços”, na verdade tão insignificante, seria a causa da perdição de um menino pobre, cujo sonho era viver na Alemanha.
Dessa maneira e assim por diante, embora o conjunto apresente como ponto em comum o enredo em torno do objeto, e os relatos tenham o prazer como partida e a turbulência como chegada, cada episódio possui, de forma independente, a sua acepção própria e a sua própria intencionalidade, bem como o seu ritmo e o seu plano narrativo.
Poderá parecer que os onze contos, por certo planejados para formarem a unidade do livro, sejam textos altamente elaborados com a intenção de impressionar a crítica ou, quem sabe, um público mais qualificado literariamente, tornando-se herméticos ou desinteressantes para o chamado grande público. Mas são exatamente o oposto. Sem deixarem de atender às exigências da qualidade — afinal, trata-se de um veterano e conceituado autor —, eles fluem suavemente, repassados de ternura e de fino humor, por vezes ironia e até uma discreta indignação, como se fossem narrados por um contador a viva-voz, voz mansa e pausada de quem ferra uma conversa gostosa.
Em “Manuscrito Perdido”, o personagem, que é um escritor, pensa, a respeito de algo que escrevera: “o conto tinha muitas sutilezas, muitas sinalizações disfarçadas, variações de ritmo, por isso gostara dele, talvez fosse o melhor de toda a coleção, o mais trabalhado para parecer espontâneo na leitura”. Isto é o que pensa o personagem de José J. Veiga sobre o que ele considera ser a sua obra-prima. Quem sabe não será precisamente isto que pensa o próprio José J. Veiga sobre o que seja um ótimo conto, e não se encaminhe, no seu ato de criação, para essas diretrizes? O fato é que são, em sua maioria, assim mesmo as suas narrativas, leves, sutis, com sinalizações ocultas, alternâncias de ritmo e, sobretudo, espontâneas. E vão levando o leitor de história a história, despertando inclusive uma curiosidade extra, por se saber antecipadamente que cada trama é motivada por um objeto: como será a da “Luneta”? E a do “Tapete Florido”? O que ocorrerá com a “Pasta de Couro de Búfalo”? E com o “Cinzeiro”? E, afinal, o que será esse objeto misterioso chamado “Cantilever”?
Esse livro, Objetos turbulentos (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1997, 157 pgs.), que o autor recomenda seja lido à luz do dia, é um bem sucedido exercício de composição ficcional. Uma curiosa experiência que resultou em páginas, como a já citada “Cachimbo”, que, sem dúvida, se tornarão tão antologiadas quanto tantas outras do consagrado autor de Os Cavalinhos dePlatiplanto.
A resenha de Aramis Ribeiro Costa foi publicada no suplemento Cultural do jornal A TARDE, em 1997, e agora está resgatada como uma forma de homenagear o escritor de Góias. Na época, J. J. Veiga escreveu uma carta para Aramis, expressando o quanto havia gostado do texto; em outras palavras, chegou a escrever que foi a melhor resenha que ele já havia lido sobre um livro seu. GD"
“Quer fazer bem? Então, faça você mesmo!” – Ou algo assim, com sutis variações. O jargão serve também para leitura: ler criticamente e tirar suas próprias conclusões. É quase uma obrigação do “bom leitor”. É por isso que muitos consideram certos “tipos” de livros como sub-literários, pois sequer permitem ao leitor fazer crítica, quanto mais tirar conclusões: entenda-se “auto-ajuda”, “esoterismo”, “psicografia”. Todos já deviam saber que a história que nos é passada de gerações, em 99% dos casos, contém a versão do vencedor. Unilateral e sempre entendida como “verdadeira”. Foi assim com os milhares de filmes que abordaram a II Grande Guerra, e não seria diferente aqui no Brasil, nos poucos e raros eventos bélicos que tivemos. Tanta passividade tem seu ônus, não adianta arranjar desculpas. A estratégia sempre foi suprimir radicalmente com opositores, revoltosos e simpatizantes. A tão heróica e brava “revolução” farroupilha não foi diferente. Por detrás da famosa “questão do charque”, muito provavelmente, havia interesses muito mais sérios em jogo: a escravatura, a preservação da oligarquia, a expansão do latifúndio e outros. A independência, propriamente, do Rio Grande do Sul (com a interessante e muito bem-vinda anexação de Santa Catarina) talvez tenha sido o interesse de menor importância. Mas não pretendo pisar em terreno minado, deixo o assunto para quem entende, ou deveria entender, melhor que nós leitores: os historiadores. A mim, humilde leitor, cabe a responsabilidade de ler, com senso crítico, e tirar, como já disse, minhas próprias conclusões. Aqui não faço apologia a nada, apenas divulgo boas e interessantes leituras. Mas sei que há gente que é adepta de “cortar o mal pela raiz”. Fazer o quê?
“Bento Gonçalves – O herói ladrão”, foi escrito em 1983, pelo então estudante Tau Golin. Um livro polêmico até hoje. Edição esgotada. Os exemplares que não foram “queimados em praça pública” (vide “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury) ou usados para acender fogões à lenha, ainda podem ser encontrados em sebos espalhados pelas maiores cidades do Rio Grande do Sul. O escritor hoje é Doutor em História e professor da Universidade de Passo Fundo, continua sendo “persona non grata” pelos tradicionalistas gaúchos. O autor publicou também “A ideologia do gauchismo” e hoje milita (não tão solitário) numa verdadeira cruzada contra o Tradicionalismo Gaúcho.
Como gaúcho, não pretendo entrar no mérito ideológico da obra de Tau Golin, mas vai aí uma pequena palhinha do livro:
“Nesse pequeno trabalho não pretendemos renegar o herói Bento Gonçalves, simplesmente, a partir de critérios morais, embora estes sejam relevantes e tenham motivado, de início, essa exposição. Ao contrário, consideramos fundamental, não desprezando os dados por esse ângulo, situá-lo na sua classe, entre os seus iguais, latifundiários que por seus interesses e atitudes eram absolutamente diferentes aos da massa popular, e cujas riquezas eram constituídas não apenas pelo processo ímpar da conquista do território, da escravidão humana, da exploração do trabalho alheio, mas paralelamente do contrabando, do saque indiscriminado e do roubo.
Essas reflexões poucos alvissareiras, é verdade, trazem um golpe forte no purificado mito gonçalveano. Entretanto, sua força manifesta-se através da natureza dos documentos, que até hoje sempre existiram em local de relativo e fácil acesso para os historiadores*. Não foram inventados e, igualmente, essa publicação também não é o resultado de um mirabolante e criativo plano para agredir gratuitamente o mais importante herói rio-grandense. Particularmente, gostaríamos que houvessem frutificado em nossa terra muitos heróis, cujo patamar de luta pudesse ser identificado pelo seu conteúdo popular. Todavia, os históricos ventos do Rio Grande ainda não puderam correr pelos campos e cidades com tal notícia...
Objetivamente, precisamos afrontar a necessidade que todo trabalho situe-se no senso comum, melhor maneira de alterar a visão dominante da elite sobre a história do Rio Grande do Sul. A supremacia da visão dominante e positiva sobre o processo social rio-grandense impera absoluta, articulando-se na massa popular como se fosse a sua verdadeira história. Existe uma tarefa urgente: a de reconstituir a história, para que o povo possa enxergar-se corretamente na sua trajetóra social, desde o passado, e encaminhe as transformações futuras. Assim, os pesquisadores não encontrarão mais tão facilmente (ou atribuirão com tanta liberdade ao povo) versos do cancioneiro popular, como esse:
“Bento Gonçalves da Silva
Da liberdade é o guia.
E herói. porque detesta
A infame tirania’’.
(in “ARREMATE DESSA HISTÓRIA POUCO ALVISSAREIRA”, p. 47/48)
Num trabalho relevante e primoroso, a artista plástica Rita de Cássia Baduy Pires apresenta ao público brasileiro um pouco da vida de uma verdadeira “lenda viva”, não só curitibana, mas do Brasil, o “multiartista” e poeta Hélio Leites. Coincidência ou não, eu havia assistido a um documentário na televisão sobre um artista de Curitiba, o qual me chamou muito a atenção, por ser “multiperformático”, e, dias depois, como presente de um amigo, minha esposa recebe em casa um livro sobre ele, um artista chamado Hélio Leites.
Como um extraordinário miniaturista, cujos trabalhos deram nome ao livro, “Pequenas Grandezas”, Hélio Leites poderia até ser denominado, literariamente, parodiando Jonathan Swift, de um liliputiano que cresceu demais. Mas esse artista não é só poeta, miniaturista, “botonista”, fazedor de coisas, Hélio Leites é um “personagem camaleônico”, um “significador de insignificâncias”, como bem o qualificou a artista plástica Marília Diaz ao fazer o difícil “Prelúdio” do livro.
Hélio Leites é um artista de difícil classificação, diante da magnitude, da amplitude e da diversidade da sua produção artística, tanto que o Jornalista Rodrigo Garcia Lopes chegou a criar um inédito neologismo:
Já outro jornalista, desta vez Mendanha, também tentou classificá-lo da seguinte forma: “Se tivéssemos de traduzir, em parábola gastronômica, a impressão deixada pela personalidade de Hélio Leites, diríamos estar perante o resultado da seguinte receita: 400 gramas de gênio, tipo Salvador Dali; 300 gramas de loucura saudável; 200 gramas de Budismo Zen, na versão tropical; 100 gramas de franciscanismo ou freudianismo, conforme os gostos, não esquecendo um pau de canela.”
O livro de Rita Pires é resultado de um excelente e magnífico trabalho de pesquisa sobre este extraordinário artista que é Hélio Leites. Para referendar toda a sua produção, Rita Pires trouxe depoimentos de gente de peso, cujas declarações são insuspeitas e inquestionáveis: a poeta curitibana Helena Kolody; o poeta Paulo Leminski (1944-1989); a escritora Adélia Prado; Millôr Fernandes; Domingos Pellegrini; Wilson Bueno e vários outros.
Nada passa despercebido por Hélio Leites. Para ele a arte “deve estar”, segundo seu olhar clínico de artista, e “está” em todo lugar e todas as coisas, principalmente nos rejeitos, na aparente insignificância das pequenas coisas. Primeiro, botões (sim, botões de roupa, hoje tão esquecidos, mas não para Hélio); depois envelopes de carta, “usados” (sempre); caixas de fósforos (usadas e vazias) e os palitos de fósforo, de preferência os queimados, e mais, muito mais. Foi talvez por este motivo que o poeta Paulo Leminski qualificou, de forma precisa, Hélio Leites como o “significador de insignificâncias”.
O escritor Wilson Bueno assim tenta descrevê-lo: “Este Hélio Leites é um cara muito estranho, capaz de pegar na asa da borboleta sem lhe desmanchar o desenho, ainda que, dele, as suas mãos, sejam grandes, quase ríspidas. Daqui imagino o indispensável pássaro que há de morar nelas para que pintem e pinguem, pontículo brilhante, o diminuto olho de uma personagem (ainda) sem rosto e que, de dentro da caixa, logo mais, no centro da cidade, pode que se mexa, e pisque para você, de surpresa, o seu olhículo aceso. Há também mãos e unhas que sendo microscópicas parecem nunca existirem.”
Na reportagem a que assistira anteriormente ao recebimento e à leitura do livro, lembro perfeitamente que Hélio Leites dissera estar fazendo o curso superior de “Artes Plásticas” para que, mais tarde, não o classificassem, depreciativamente ou com outra intenção menos nobre, de ser ele apenas um “artista sem formação”. Ora, pode até ser que haja, e com certeza há, pessoas por aí que se preocupem mais com a “formação” do artista do que com sua produção propriamente dita. Uma mania, embora relevável, mas muito chata que muitos teóricos têm em querer “enquadrar”, “classificar” as coisas como se tudo tivesse que ter alguma “padronização” para poder ser compreensível ou assimilável.
Para mim o artista, seja ele músico, ator, pintor, escultor, escritor, ou outro qualquer de alguma das muitas ramificações das artes, para que ele tenha pleno e integral o seu dom, o seu instinto criador, não basta “estar”, mas ele deve “ser” livre. Íntima e externamente. A mente de um artista não funciona como a de uma pessoa comum (“não-artista”). A liberdade de criação nas artes é polêmica, discutível e muito abrangente, não podendo ser encarada sob o ponto de vista de uma pessoa “normal”, aquela ainda presa à educação convencional, católica, capitalista e consumista, arraigada de conservadorismo, que herdamos de nossos avós e bisavós. Educação ultrapassada, obstinada e muito preocupada apenas com os valores sociais de “estética”, “beleza”, “durabilidade”, “status”, “valor pecuniário”, “tamanho”, “nobreza dos materiais”. Característica do puro materialismo estético.
Muitas vezes, a sociedade se surpreende, diante de um artista e, ingenuamente, sem muito entender, para não perder o chão talvez, já o “rotula” de “brilhante”, “genial”, ou outras expressões completamente desnecessárias, posto que, para mim, são completamente redundantes. Pois um verdadeiro artista é naturalmente criativo, original, genial e, muitas vezes até, simultaneamente genioso. O que se pode discutir, com tranquilidade, a respeito dos artistas, é o “grau” de liberdade que os diferencia. Muitas vezes, equivocadamente, um artista é tachado de “louco”, simplesmente porque produz algo que “os normais” não são capazes de assimilar ou compreender, e logo o “rotulam” para mais ou para menos, superestimando ou subestimando sua produção. Besteira inconsequente. E Hélio Leites é exemplo de um “verdadeiro” artista, é brasileiro e mora em Curitiba.
“Pequenas Grandezas – Miniaturas de Hélio Leites”, da escritora e artista plástica Rita de Cássia Baduy Pires é de 2008, Editora Artes e Textos, Curitiba, PR.rotulam para mais ou para menos, superestimando ou subestimando sua produç