Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 13 de julho de 2010

O que é comunicação poética. Décio Pignatari


9ª Edição, Cotia-SP, Ateliê Editorial, 66 páginas, R$21,00.

Esclarecedor. Didático. Um livro para quem diz que não gosta de poesia, ao invés de admitir que não a entende. E um livro também para quem gosta de ler poesia e/ou para quem tem a coragem de produzir poemas. Para os primeiros, este livro é como uma lanterna de 500 watts na escuridão; para os segundos, uma ferramenta insubstituível. Em apenas 66 páginas, numa linguagem acessível e direta, Décio Pignatari fala sobre um assunto que ele domina como poucos. Segundo o autor, a poesia não pode ser lida como a prosa. É um grande equívoco em que o leitor tropeça ao culpar o poeta ou sua poesia, quando há apenas erro de leitura. Poesia e prosa pertencem a “planos” distintos. A prosa prima pelos significantes, “nível de competência”, enquanto a poesia pelo significado, “nível de desempenho” (p.12). “Para o poeta, mergulhar na vida e mergulhar na linguagem é (quase) a mesma coisa. Ele vive o conflito signo vs. coisa. Sabe (isto é, sente o sabor) que a palavra “amor” não é o amor — e não se conforma...” (p.11)

Em outro momento, Pignatari vai direto, esclarecendo causa e consequência: “A maioria das pessoas lê poesia como se fosse prosa. A maioria quer “conteúdos” — mas não percebe formas. Em arte, forma e conteúdo não podem ser separados. Perguntava o poeta Yeats: ‘Você pode separar o dançarino da dança?’ Quem se recusa a perceber formas não pode ser artista. Nem fazer arte.” (p.18)

A seguir, as palavras do próprio autor:

“O poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem, fazendo poema. Está sempre criando e recriando a linguagem. Vale dizer: está sempre criando o mundo. Para ele, a linguagem é um ser vivo, O poeta é radical (do latim, radix, radicis = raiz): ele trabalha as raízes da linguagem. Com isso, o mundo da linguagem e a linguagem do mundo ganham troncos, ramos, flores e frutos. É por isso que um poema parece falar de tudo e de nada, ao mesmo tempo. É por isso que um (bom) poema não se esgota: ele cria modelos de sensibilidade. É por isso que um poema, sendo um ser concreto de linguagem, parece o mais abstrato dos seres. É por isso que um poema é criação pura — por mais impura que seja. É como uma pessoa, ou como a vida: por melhor que você a explique, a explicação nunca pode substituí-la. É como uma pessoa que diz sempre que quer ser compreendida. Mas o que ela quer mesmo é ser amada.” (p.11/12)

Em “Observações Finais”, p. 61, o autor encerra com dicas simples e claras, sem aquela arrogância tão tradicional de muitos teóricos:

“1) Já pouco se usam poemas de forma fixa: de vez em quando, pinta um soneto. Quanto a módulos fixos, a quadra resiste ou você cria o seu, como o faz João Cabra!. No mais, é o “verso livre”, de comprimento, métrica e ritmo variáveis.

2) Sendo assim — como sempre foi, aliás — saber “cortar” o verso, saber passar de um para o outro, é lance importante.

3) Nos poemas gráfico-espaciais, a tipografia e a caligrafia (quando for o caso) não podem ser desprezadas. Quem se ligar nessa, precisa curtir a fascinante história da escrita e da tipografia.

4) Quanto ao mais, este manualzinho, principalmente em sua parte prática, é algo assim como uma bola de futebol ou uma prancha de surf. Não está nelas o principaI: a graça, a habilidade, a coragem, a signi-ficação — que dependem do talento e do desempenho de você.”

Por fim, algumas belas “ilustrações” do livro:

“Uma coisa é dizer: A chuva cai./Outra é mostrar a chuva caindo:(p. 50)

chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva

“Veja como Ronaldo Azeredo sintetizou dinamicamente uma seqüência banal como a descrição da luz solar desaparecendo das ruas da cidade à medida que a tarde cai:

ruaruaruasol
ruaruasolrua
ruasolruarua
solruaruarua
ruaruaruas”

(p.58)

E, para encerrar:

“Estamos dando a você aquilo que é fundamental para a competência poética — mas abrindo para o desempenho criativo, que é tarefa sua.

Muita inibição ao nível do desempenho é provocada pela insegurança ao nível da competência. É nisto que se apóia a censura, de fora e de dentro (autocensura), para impedir que você crie. Vamos reabrir ambas as válvulas.” (p.12)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Pequeno gafanhoto biografado. Valdemir Klamt


Livro de um autor brilhante, dono de um talento incomum, que, para começar, sofre “de constantes intoxicações de palavras./ Pimenta, pitanga e prego são as mais vene
nosas”(p.30) e que, discretamente, “Implor(a) não ser.” (p.31). Brincar de deus é bom e divertido (e eu gosto - do brinquedo e do resultado!). Quem escreve ou apenas aprecia a boa literatura sabe do que falo. Criar personagens, histórias, enredos, ser o “Senhor” da vida e da morte das próprias criaturas é algo fascinante e vem seduzindo muita gente há séculos. Só experimentando mesmo um pouco desse entorpecente ato de escrever para saber exatamente do que digo. Claro que não basta dominar o idioma, é preciso mais, muito mais. A literatura não se resume à sintaxe, à semântica, decoreba de dicionário. Há até que se deixar levar (quase sempre) pela própria obra (vide a teoria do “Inconsciente do Texto” – contestável, sei, mas!). E, em “Pequeno gafanhoto biografado”, Valdemir Klamt põe em prática sua experiência, sua formação pessoal e acadêmica, numa aventura (odisséia, talvez) impar, inédita, levando o leitor a vivenciar o que parece ser inimaginável. Em seus versos de “quase-prosa”, Valdemir Klamt seduz, hipnotiza e reduz o leitor, para que possamos ver o mundo sob outro prisma. Valdemir Klamt é um sobrevivente (mais um, ainda bem!) da castradora teoria daqueles que se sujeitam à formação acadêmica. E ainda há quem pense que a formação em Letras é necessária ao ofício de escrever. Ledo engano!


“Pequeno gafanhoto biografado”, de Valdemir Klamt vem com “Pretexto”, em substituição ao tradicional prefácio, justificando a obra com uma história de um ataque de uma praga de gafanhotos a destruir uma plantação de aipim. Depois o livro é dividido em três partes: “Investigações”, “Desejo de ser gafanhoto” e “Fita métrica”. O resultado é um livro meio emblemático, quase um livro de divagações (ou reflexões) filosóficas. Alcides Buss, teorizando nas orelhas, faz uma interpretação mais técnica da obra e diz: “... uma poética de indagações. Mais do que uma incursão kafkiana, esta imagem nos encaminha, pouco a pouco, par uma compreensão inusitada dos avessos da existência. As imagens, ao contrário de se perderem nos labirintos da insignificância, vão descerrando os anéis que os unem, ou os separam, nas entrelinhas da vida (e da morte).”


A poética de Valdemir Klamt, neste livro, como o próprio título da obra, traz, através do “gafanhoto”, frequentes recorrências, evitando que o leitor se perca no caminho e, ao mesmo tempo, não o deixa esquecer do tempo para reflexão:

“Nascer pequeno é diferente/ Pior é viver pequeno./ Há quem morre miúdo.”(p.15);

“Toda noite me desfaço de mim/ Ponho meu corpo num cabide./ Enxáguo a alma de gafanhoto.”(p.16);

“Eu me tornei mais gafanhoto depois/ que passei a criar sacis-pererês./ Sacis alimentam-se de incorpóreo/ e de pobres amores,” (p.19);

“Castiguem os homens para não ousarem./ Façam caber na forma quem possui gordura.”(p.29);

“Passarei férias no manicômio dos grilos./ Descobri que minha perna torta é um defeito./ Imaginem se descobrem que tenho desvio de personalidade!” (p.30);

“A coisa mais azul é um corpo em queda livre do décimo nono andar.” (p.37);

“Sou um ser inibido, retraído e calculista./ Desconheço como cheguei à serenidade,/ sequer sei a maneira como se atinge a idade/ que tenho e por quê o terror da velhice.” (p.39).


E há mais, muito mais poesia de qualidade em “Pequeno gafanhoto biografado”. Lembro que meu contato com o livro foi, primeiramente, pelo título, no catálogo da Editora Escrituras, quando o ganhei para escolher livros para resenhar para o site Leia Livro (hoje extinto). E, hoje, depois da terceira leitura, posso afirmar categoricamente que Valdemir Klamt é mais um integrante da nova poética brasileira contemporânea. Santa Catarina agora tem um representante de peso. Junta-se aos gaúchos Carpinejar e Paulo Scott, e aos cariocas (ou fluminenses) Zeh Gustavo e Gustavo Jobim (Zé Urbano).


“Valdemir Klamt nasceu em 1976 e formou-se em Letras pela UFSC. Atualmente mora em Florianópolis/SC e é pós-graduado em Teoria da Literatura pela mesma universidade.”


O livro “Pequeno gafanhoto biografado” é de 2002, editado por Escrituras, São Paulo. Tem ilustrações de Márcia Cardeal, que também produziu a capa.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Preparativos de Viagem. Mário Quintana


"Preparativos de Viagem", de Mário Quintana, é, como em todas as suas produções, um livro de conteúdo amplo e sempre encantador. Repleto de textos para os críticos literários quebrarem cabeça e, em vão, tentarem enquadrar n'algum tecnicismo histórico-estilístico, poesia, prosa poética, junção ideogramática, epigramas. Mas, para um leitor de bom gosto, que aprecia uma boa literatura, Quintana é leitura obrigatória, incomparável, sem igual.

"A saudade é o que faz as coisas pararem/ no Tempo."


"Sempre que chove/ Tudo faz tanto tempo.../ E qualquer poema que acaso eu escreva/ Vem sempre datado de 1779!"


"Coração que bate-bate,/ Antes deixes de bater!/ Só num relógio é que as horas/ Vão passando sem sofrer..."


"A recordação é uma cadeira de balanço/ embalando sozinha..."


Esses são apenas alguns dos “textos” do poeta gaúcho, em "Preparativos de Viagem". Mário Quintana vai da poesia formal, com seus sonetos métricos e rimados, para o poema livre tão naturalmente que o leitor sequer percebe, encantado pelo teor das mensagens, lendo apenas a arte da poesia pura, da essência poética, sem aqueles desnecessários rótulos.


Os leitores gaúchos, quando querem se referir a Mário Quintana, chamam-no de "O Poeta". Sem qualquer "bairrismo", seja qual for a naturalidade do leitor, só quem lê Quintana pode entender as razões dos gaúchos e tirar suas próprias conclusões.


Mário Quintana nunca foi membro da Academia Brasileira de Letras, e, em sua única disputa para fazer parte dos imortais, foi preterido por razões (como sempre) meramente políticas.


Resenha publicada no extinto site www.leialivro.sp.gov.br