“Rasif – Mar que arrebenta”, Marcelino Freire. 2008. Editora Record, 131 páginas. R$27,90 na Livraria Cultura. Capa dura, com ilustrações de Manu Maltez.
Há algo de muito estranho em “Best Sellers”. Sabe aquele mistério da coisa megalomaníaca? Tanta gente lendo a mesmíssima coisa? Aqui e no mundo inteiro? Não, não entro mais nesta onda suspeita. Prefiro ser cauteloso e ficar por aqui mesmo. Minha austeridade já vê de longe as conspirações editoriais. Temos ótimos escritores daqui mesmo. Não, não me refiro ao Machado, Guimaraes, Veiga. Falo de escritores de agora, hoje, ontem, amanhã. A língua portuguesa do Brasil vive, grita, berra, com outro sotaque. Quer ser ouvida, ou melhor, lida. E, para quem ainda não conhece, eis o escritor Marcelino Freire. Novamente, não, outra vez. Já havia lido, com muito gosto, “Balé Ralé” e “Contos Negreiros”. Agora foi a vez de “Rasif – mar que arrebenta”.
No universo dos contos de Freire, não há perfume de rosas, existe é "uma arma escondida no buquê" e o sentimento é outro: “Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça.” (p.77). Já imaginou um pai levando para casa um travesti para tomar um café?, e quem nos conta a história é o júnior. O dilema de um pai que sonha em ver o filho virar um famoso jogador de futebol, mas que não tem habilidade nenhuma com a bola e, o que é pior, quer ser poeta. E por aí vai. Em “Rasif”, a violência não espanta, a homossexualidade é sem fobia, a loucura é do ponto de vista dos loucos. Marcelino Freire poderia até ser classificado como uma voz ou um estandarte das minorias, dos desfavorecidos, mas não. Na obra de Marcelino, não há hipocrisia, impera a ironia,o deboche, o sarcasmo, a dubiedade. Entendam como quiserem! – Ele diria. Mas é uma das formas que ele encontrou para nos incomodar, intimidar, ruborizar – “Ei, acordem, seus trouxas!”. A Literatura não precisa ser literatice e não é porque retrata a realidade nua e crua que é menor ou inferior. A verdadeira literatura não deve ser uma forma de fugir da realidade. E, ah!, antes que perguntem, respondo: se você gosta de ler auto-ajuda, livros evangélicos, Sabrina e Dan Brown, não irá gostar. Vai a seguir uma dose homeopática:
“O que é um sabonete perto da natureza? País de marginal!
Queremos que soltem o Grande Sol, o Cacique tá dizéndo. Ele tem direito ao que
é cheiroso. Já que tudo agora deu pra feder. Água de esgoto. Que ele trouxe no pote-curare.
Ave!
Você vem? Quem vem beber desta água? Quem tem coragem? Hein? Selvagem? De meter a língua nesta fedentina? Ele tá desafiando: a senhora aí, de blusa azul-piscina.
Saudade do cacau azul. E do jenipapo. Do jutai-açu. Ingá-chichi. Ele tá dizendo. Lacrimejando. Mas peraí. A gente não tá aqui pra chorar as pitangas. Fazer folclore, nada disso.
Porém vou contar uma história. Ele tá dizendo. Sabe o mendigo Caitetu? Não era mendigo. E nem tava nu. Veio à cidade de vocês, vestido. Maltrapilho e educado. E sabe o que fizeram com Caitetu, o coitado?
O escritor Nelson de Oliveira (“Naquela época tínhamos um gato”, 1995) já se tornou um referencial de consulta, com sua habilidade em descobrir e divulgar novos talentos literários. Graças aos seus artigos sobre a literatura brasileira contemporânea, publicados na internet e em livros sobre o assunto, pude conhecer trabalhos de excelentes escritores, tais como: João Anzanello Carrascoza (Dias Raros, 2004); Marcelo Mirisola (Fátima fez os pés para mostrar na choperia, 1998), Marcelino Freire (Balé Ralé, 2003), Rosário Fusco (A.S.A. – Associação dos Solitários Anônimos) e outros.
Neste livro, “Blablablogue – Crônicas e Confissões”, Nelson de Oliveira, através de uma pequena (quase ínfima) amostragem, revela-nos a magnitude do universo da chamada “blogosfera”. Embora tenham sido, equivocadamente, a princípio, caracterizados como espaços para divulgação de um suposto egocentrismo dos internautas, os Blogues hoje se tornaram uma fonte segura, eclética e inesgotável de informação e cultura. No livro, Nelson restringiu-se apenas aos blogues da sua “praia”: a literatura. O critério utilizado para selecionar os 21 blogueiros do livro foi o mais simples possível, a afinidade e o fato de conhecer os internautas. O próprio escritor é quem diz: “Curioso isso: os desconhecidos não me interessam tanto. Eu gosto de ler o blogue de pessoas que eu conheço, que moram perto de casa ou, no caso das que moram fora, estão sempre visitando São Paulo. Todas elas são apaixonadas por literatura e a maioria já tem livros publicados.” (p.158).
Alguns dos blogueiros selecionados para o livro, já são escritores conhecidos e de talento inquestionável, como o escritor pernambucano Marcelino Freire, do blogue - http://eraodito.blogspot.com; e o escritor gaúcho Fabrício Carpinejar, cujo blogue leva o seu nome – http://fabriciocarpinejar.blogger.com.br. Mas Nelson de Oliveira, com seu olho clínico, apresenta-nos vários outros novos escritores, entre os quais, destaco:
“Acredito que a inteligência ou o espírito, como quiser, se manifesta quando há uma determinada configuração. Nosso corpo tem uma configuração X, nele o cérebro recebe e envia eletricidade, a base da comunicação, esta, o veio da inteligência. O corpo configurado pode abrigar o espírito e nele instituir faculdades, pois somos uma proposta em andamento. Se o homem, na fabricação de suas máquinas, tentar imitar a configuração humana: organismo e metabolismo, corremos o risco de constituir algo capaz de abrigar um pensamento. Foi o que fizeram conosco, é uma questão de conteúdo e continente. Daqui por diante tenha cuidado ao comprar uma boneca, ela pode se chatear se ficar presa no guarda-roupa.” (in “Cabeça e membros”, p.7)
“Velhice é procurar montanhas e achar apenas montanhas de roupa suja. É classificar um disco como “agradável para lavar roupa” no trajeto entre a área de serviço e o macarrão que tá no fogo. / É abrir a janela de manhã pros cartões postais, atrás de sol, e notar que seu único cartão postal é o supermercado pão de açúcar. E ter que ir lá porque acabou o pó de café. / Mas acho que o raio-x da velhice (e da pobreza), mermo, é comprar congelados de um amigo do trabalho pra garantir uma boquinha no domingo. E, claro, esquecê-los no trabalho na sexta-feira à noite.” (in “Dolla”, p.44)
“Ella é fumante há trinta anos. Semana passada tossiu durante duas horas, onze minutos e trinta e sete segundos seguidos, sem parar. Quase bateu seu recorde anterior. Nesta sexta-feira, Dia Nacional Anti-Fumo, decidiu passar o dia inteiro sem acender um cigarro. Estava indo bem até que viu na padaria a manchete na Folha de S.Paulo: “Serra propõe banir o cigarro de SP”. Não se deu conta inteiramente do golpe até ler a linha fina: “Se o projeto enviado à Assembléia for aprovado, só será permitido fumar ao ar livre ou dentro de casa”. Ella ficou tão abalada que precisou acender um cigarro.” (in Miniconto tabagista”, p. 67)
“Às vezes parece que estou amolecendo. Que meu coração pode ser partido em alguns pedaços. Mas não. Quando amoleço, eu choro. E quando choro meu coração se fortalece. É um músculo robusto. Não dá pra perceber porque o meu peito é profundo. É profundo como minha alma, presa às coisas fora da minha dimensão palpável. / Sou sensível por fora, frágil como uma garotinha, mas aprendi a derrubar touros. Eles são fortes por fora e instáveis por dentro. Em meio à instabilidade dos outros, encontro um equilíbrio que move minhas relações. Às vezes desabo. Então eu durmo. Durmo muitas horas. Quando acordo, as horas transcorreram, o planeta girou, pessoas nasceram, morreram, mutilaram-se, desistiram, choraram, beberam, drogaram-se, se desesperaram, concluíram e recomeçaram. Eu acordo. Tomo um banho. Como alguma coisa. Retomo minha vida e me apoio nessas instabilidades que moverão meu novo dia.” (in “Mariposas fazem sombras em mim enquanto sobrevoam a lâmpada da sala”, p. 93)
Por fim, o próprio Nelson, conclui: “Para quem não costuma visitar blogues, esta coleção de crônicas e confissões deve ser entendida apenas como um convite, um aperitivo, uma plataforma de decolagem... O universo on-line é imenso: em cada blogue haverá dezenas de links para outros blogues igualmente interessantes, formando uma trama de infinitas constelações.” (p.158)
“Blablablogue – Crônicas e Confissões”, organizado por Nelson de Oliveira.
(Editora Terracota, 2009, 159 páginas, R$25,00 na Livraria Cultura)
Um experimento literário. Vale pela arte de escrever (o que for). Inspirados pelo famoso microconto ou miniconto (a distinção é tão sutil que confunde, mas há quem distinga com precisão) do escritor hondurenho, Augusto Monterroso (Bonilla)*, que nasceu em 21/12/1921 em Tegucigalpa, falecendo em 07/02/2003:
“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”
Um “microconto” com 37 letras que se tornou mundialmente famoso. Foi inspirado nele que o escritor Marcelino Freire (Balé Ralé, Contos Negreiros) resolveu desafiar cem escritores brasileiros para escreverem “histórias” inéditas com até 50 “LETRAS” e não “palavras”. Uma tarefa difícil e que requer um poder de concisão muito apurado. Nos “textos” publicados pelos cem (103) escritores há de tudo um pouco. Doidice sem tamanho, coisa “sem-pé-nem-cabeça”, absurdos despropositais, literatura “conceitual”, “bobiças” para rir um pouco. Não bastasse o tamanho diminuto do livro (13x11cm), que ficou parecido com aquelas pequenas bíblias encontradas nas gavetas de criado-mudo de cama de hotel de terceira. Salvam o livro (ainda bem!) os “textos” de alguns escritores que se propuseram a dar valor ao que levaria seus nomes:
“Faço amizade comigo para tomar uma cerveja.” (in “Fossa”, de Fabrício Carpinejar, p.27);
“Pronto nos olhos, o pranto só espera a notícia.” (in “Vigília”, de João Anzanello Carrascoza, p. 38);
“Banheiro na chamada do vôo. Cálculo renal salta. Ele guarda.” (in “Aeroporto”, de João Gilberto Noll, p. 40);
“- Cabeça?/ - É. / - De quem? / - Não sei. O dono não tá junto.” (in “Disque-denúncia”, de Marçal Aquino, p. 55);
“- Se atrasa, preocupa. Quando chega, incomoda. / - Menstruação? / - Meu marido.” (in “Chico”, de Nelson de Oliveira, p.73);
“Madrugada. / Ele as esmaga com os pés, dá-lhes chance de ferroar.” (sem título, Paulo Scott, p. 77).
Um destaque especial para o cineasta e escritor gaúcho Jorge Furtado:
“- Eu não te amo mais./ – O quê? Fale mais alto, a ligação está horrível!” (sem título, p. 43)
Marcelino Freire, o organizador, é salvo pelo título:
“Ajoelhe, meu filho. E reze.” (in “Pedofilia”, p.56)
Mas o que realmente salva o livro é o texto de Sérgio Roveri:
“- É espinha?/ - Cravo. / - Posso apertar?/ - Não!/ (Ploc)/ - Ai, que nojo.” (p. 93)
Se despertei curiosidade, o livro “Os cem menores contos brasileiros do século” é de 2004, publicado pela Ateliê Editorial, com104 páginas, paguei R$35,00 pela Internet. Caro. É bom para aprender.
Pro leitor sentir o preconceito na própria pele. Foi meu segundo audiolivro. Há alguns meses, experimentei ouvir o primeiro: “A arte da guerra”, de Sun Tzu. Estava lá, em promoção numa banca de livraria. Barato, mas nem tanto. Não sou deficiente visual nem cego. Fiquei apenas curioso. Ouvi no som do carro, enquanto dirigia. “A arte da guerra” é muito monótono, quase chato. Lembro que “A arte da guerra” ficou famoso, em 2002, quando o técnico da seleção brasileira de futebol, o Scolari, disse que costumava se socorrer das idéias milenares, meio-parábolas, meio filosóficas, de Sun Tzu, colocando-as em prática nos times por ele treinados. Pobres coitados! Depois virou coqueluche entre os “executivos”, aqueles que não conseguem pagar “acompanhantes”, estimulados pelos “Marins” e “Lair-Ribeiros” da vida, principalmente aqueles “chefes” que adoram transformar empregados em soldados, ou melhor, em “escravos”. Chefe tradicional tem sempre um “quezinho” de feitor, daqueles cedeefes que estão sempre querendo mostrar serviço ao dono da empresa, sugando os empregados. Qualquer semelhança com a escravidão não é mera coincidência.
Escravidão? Bem! Este tema é uma ferida que incomoda muita gente. Em “Contos Negreiros” a escravidão é revista e revivida, há racismo, preconceito, prostituição, turismo sexual e variações dos mesmos temas. Uma coisa leva à outra e, no Brasil, associa-se intimamente à pobreza, miséria, violência, discriminação. Marcelino Freire cumpre os ditames da boa e excelente literatura em “Contos Negreiros”, pois entretém, faz crítica social, muito forte e contundente, e enriquece o leitor, aqui, no caso do audiolivro, o ouvinte. Envolvendo temas polêmicos, comuns e cotidianos, que estão enraizados na cultura brasileira, os contos tratam de uma maneira ou de outra do preconceito e da discriminação a que sempre esteve sujeito o negro brasileiro, ou o índio, sejam descendentes, ou miscigenados, os famosos pardos, meio mamelucos, cafuzos, pêlo-duros.
Talvez possa haver algum leitor, ou ouvinte, que, equivocadamente, apenas venha a se deliciar, sem refletir criticamente, nas narrativas irônicas e, quase sempre, hilárias, de “Contos Negreiros”. Poderia dizer: ainda bem que são histórias fictícias, mas não. São histórias que podem estar acontecendo todo o dia, em qualquer bairro mais pobre, ou favela de qualquer cidade brasileira. Os negros no Brasil desde sempre foram relegados. Sempre estiveram à própria sorte. Sua associação com a pobreza, a miserabilidade é fato social, é histórica, basta um pouco de bom senso e cultura para entender. Depois ficam discutindo se as cotas para negros e pardos são legais, discriminatórias ou não. São legítimas, pois alguma coisa deveria ser feita para resgatar historicamente a situação do negro brasileiro e de seus descendentes. Se é difícil vencer na vida para um branco, imagine então para um negro. Não há como negar. Não é o governo que tem que fazer algo, mas é a sociedade. Marcelino faz a sua parte. Mostra as feridas e elas incomodam muita gente. E vamos cutucar!
Para isso é que serve a literatura. É literatura de nível, forte e ativa, nada de “auto-ajuda” para classe média com crises depressivo-financeiras. Boa literatura tem que trazer à tona temas que devem e precisam ser discutidos, questionados, revistos e sobre os quais o leitor precisa refletir. Os livros de Marcelino ajudam e muito. Só não gosta quem prefere ver o mundo com “vista-grossa”, defendendo “o cada um por si e Deus por todos”. 500 anos de governo de extrema direita branquelo-portuguesa não são fáceis de corrigir.
O livro “Contos Negreiros” foi vencedor do Prêmio Jabuti de 2006. No audiolivro, os contos, que receberam o nome de “cantos”, são narrados pelo próprio Marcelino Freire, que, mais do que ninguém, soube interpretar e dar vida aos seus personagens. Tem a participação da cantora Fabiana Cozza e de Douglas Alonso. Audiolivro de quase uma hora de boa literatura e divertimento garantido. Para branquelos, pardos e, claro, negros do Brasil. Particularmente, destaco os cantos: “Linha de tiro”; “Meu Negro de Estimação” e “Meus Amigos Coloridos”. Boa leitura ou boa audição!
Marcelino Freire nasceu em Sertânia, PE, em 1967. Vive em São Paulo desde 1991. É um dos principais nomes da nova geração de escritores, autor, entre outros, de “Angu de Sangue” (2000) e “BaléRalé” (2003).
Para não dizer que não conhecia o trabalho de Marcelino Freire antes de “Balé Ralé", eu já havia lido o monótono “Os cem menores contos brasileiros do século”, mas que fora apenas organizado por ele. O Nelson de Oliveira, em vários artigos, já vinha fazendo propaganda do “talentoso” Marcelino. E eu sou seguidor das sugestões do Nelson, através das quais venho conhecendo bons escritores contemporâneos sem me frustrar.
De qualquer forma, quem lê, pela primeira vez, “Balé Ralé”, seja um leitor exigente ou não, acaba por cair no famoso “ame-o ou deixe-o”. Quando se fala em Marcelino Freire, devemos esquecer adjetivos como “talentoso”, “brilhante”, pois são qualificações “doces” demais. Não conhecia até então a fisionomia do Marcelino e quem não o conhece, é bem capaz de imaginá-lo sendo uma criatura que tem os olhos vermelhos cor-de-sangue, que deve soltar fogo pelas ventas, ou que vomita os textos em forma de agulhas. Mas o Marcelino, apesar da voracidade do que escreve, tem até uma aparência simpática, tanto que, na foto dele no verso do audiolivro “Contos Negreiros”, está parecido com o “Arrigo Barnabé” nos tempos do MPB Shell de 1981.
Ou seja, trocando em miúdos, a escrita de Marcelino em “Balé Ralé” é forte, contundente, visceral, quase um atropelamento, por um caminhão, e daqueles bitrem, e carregado de areia ainda. Começando pela capa do livro: foto de “Os homens de Weerdinge”, do acervo de Drents Museum, que, conforme detalhe numa das orelhas, são múmias que foram encontradas em um pântano, abraçadas, sendo também conhecidas como “o casal gay mais antigo da Holanda”. ‘Tá, mas e o conteúdo? Calma. É que agora que a coisa pega. Marcelino em “Balé Ralé” exibe um estilo de “moleque”, daqueles que só gosta de sentar no fundo da sala de aula para ficar atirando bolinha de papel com o canudo da caneta só para incomodar os colegas e infernizar aquela professora de 60 anos, que voltou a dar aula depois de aposentada.
Senão, o que dizer da inédita defesa de supostos e atuais direitos de um “homossexual fossilizado”: “Sabe aquele homem que encontraram no gelo? Encontraram no gelo da Prússia?... Este homem dava o cu para outros homens. E ninguém – até então – tinha nada a ver com isso.” (in “Homo Erectus”). E o retrato, surpreendente, para não cair no aqui inadequado “comovente”, da louca paixão de um homem (espada) por um travesti: a “BethBlanchet, meu amor, porra. Juro que deixo você enfiar no meu cu esse pau gostoso. Eu deixo.” (in “Mulheres Trabalhando”). E este indício de algo maléfico, senão hilário: “...Voz de capeta falando no meu ouvido, que é isso? Não, minha senhora. Repito: ninguém manda em mim. Nem o Diabo. Vou pular porque eu quero. Porque eu quero. Vão para o inferno.” (in “A ponte o horizonte”). Ou o retrato fatídico, comum, da origem de muitas prostitutas, ao lembrarem de abusos na infância: “...Meu pai um dia mostrou o pau pra mim, balançou. Eu tinha doze anos, sei lá. Doze anos, nove anos. Mijou olhando para mim, os olhos azuis do meu pai... Desci as unhas roxas pelas coxas do velho, toquei seu umbigo. Fingi um sorriso. Vencerei tudo isso. Era puta ou não era puta, porra?” (in “Phoder”). E não há sentimentalismo, nada é bucólico ou lírico, é para chocar mesmo, até quando uma neta se vê obrigada a cuidar do avô inválido: “Sabe, vovô, eu preciso lhe contar. Ontem, arranjei um homem, vovô. Um homem de verdade, é verdade. Ele chegou, me chamou pra sambar, se esfregou em mim a noite toda. Há tempo meu coração estava precisando. Nunca é tarde,vovô, por que o espanto? Vovô, o pau dele era desse tamanho... Vovô, não é que ele gozou na minha boca.” (in “Vovô”).
Está bem, parei, se não eu acabo contando muita coisa e vou estragar a graça da leitura. Mas não há com que se preocupar, pois em “Balé Ralé”, são “18 improvisos”, como foram denominados os textos. Marcelino Freire é assim mesmo, é avesso a “nhê-nhê-nhê”, é na cara dura mesmo, vias de fato. O linguajar é o linguajar do povo, do povão, que não há frescura, nem fica fazendo imagem para aparecer, dando uma de “bonzinho”, mostrando a educação que não teve. A vida é assim mesmo, não adianta querer se enganar, lendo livros de “estórias da carochinha”.
O gaúcho João Gilberto Noll é quem apresenta “Balé Ralé” e parece ter feito um esforço enorme para qualificar uma obra tão difícil: “...Entre São Paulo e Pernambuco evoluem as criaturas de um país periférico -, prostitutas, travestis, crianças usufruídas sexualmente por gente muito próxima, mães que distribuem os filhos, um filho bailarino a levitar acima das possibilidades dos charcos tropicais... " se é que tal livro de humor rítmico e dançante, trate de vitimizações, conclui.
Agora, se o leitor gosta de ler livrinhos para fugir da realidade, esquecer dos problemas reais, e viver num mundo de conto de fadas, então não irá gostar de “Balé Ralé”, e como indicação mesmo são os livros de “Barbara Cartland”, os romances de “Sabrina”, auto-ajuda e, claro, televisão, muita televisão, principalmente, as ótimas novelas da globo, pois lá ninguém fala palavrão para putear os outros, como a gente costuma ouvir todos os dias em todos os lugares.
Recentemente, trocando idéias com a escritora Eliana de Freitas (Oculta – Uma sentença masculina – de 2006), que conheceu pessoalmente o Marcelino de Freitas, ela chegou a dizer: “Marcelino tem um poder de persuasão tamanho que é capaz de vender qualquer coisa, até terrenos na lua... O evento era para falar da reforma ortográfica e o Marcelino declarou que era contra a reforma, mudou de assunto e começou a falar sobre si e sua obra”. Eu, particularmente, gostei demais do estilo do Marcelino e já estou lendo “Contos Negreiros”.
Marcelino Freire nasceu em Sertânia, PE, em 1967. Vive em São Paulo desde 1991. Já escreveu vários livros, dentre eles “Angu de Sangue” (2000) e “Contos Negreiros” (2005).